sábado, 6 de agosto de 2016

DESENCONTRO

DESENCONTRO
                                 Vera Popoff

Amava João,
mas casou-se com José.
Esforçou-se para conservar-se íntegra,
invejou a libertinagem das outras moças,
            e caiu na rotina.
Não foi capaz de libertar-se
Evitou a traição, abafou a paixão.
Passou a vida se curvando,
      sem desabrochar
      sem escandalizar.
Passou dissimulando a tranquila,
a pacata, a discreta, a chata reservada.

Sua caminhada foi sem o brilho da lua,
na escuridão de uma noite fria.
No completo esquecimento
   já nem foi tão triste!
Passou a vida numa plataforma,
    sem embarcar
e o reumatismo chegou...

AO MEU AMOR II

AO MEU AMOR II
                                      Vera Popoff

Quando amo
Extrapolo a mim mesma.
Fico emparedada nos braços do amor
Isolada, surda, petrificada, muda...
Não quero ninguém para estorvar
            o meu amor.
Desejo ardentemente e fico à deriva,
tomada pela embriaguez.
Faço versos...
e que versos ruins!!

PARA O MEU AMOR I

PARA O MEU AMOR I
                                                   Vera Popoff

Deixei a janela aberta
e o vento entrou,
e o sol entrou.
O dia clareou.
Reluziam no coração
tanta esperança e paixão!

Como é bom deixar a janela aberta
       para o vento entrar
       para o sol entrar...
Como é bom deixar o coração aberto
       para o amor entrar...

Deixei a janela aberta
Deixei o coração aberto
e o amor entrou,
subiu à cabeça como vinho  novo.
E a alma dançou uma dança
    nada comportada.
E caí de joelhos ao chão
vencida pela paixão,
como a mais humilde,
implorando um beijo,
entregue, frágil , cheia de desejo.

Que sorte ter amado assim!
Que arrebatador sentimento!
Quanta inquietação e desgastação!
E chorei baixinho...
Murmurei palavras brotadas da paixão
     com a perda dos sentidos e
         o  desmaio da entrega!

CENAS DA INFÂNCIA ii

CENAS DA  INFÂNCIA II
                                                      Vera Popoff

Lugar nem bendito, nem maldito
Fez tristeza, fez alegria.
Lugar da terra arranhada,
da terra manchada
que fez nódoas no coração.
Com sentimentos de pesar ,
usei guache lutuosa e pintei
a tela triste de lembrar.
Bordei com ponto cheio
o tecido onde embrulhei
o bonito para recordar.

Andei com os pés descalços
Por caminhos de areião
Montei na jardineira do senhor Tonhão
que atolava no barro mole
e até mesmo no torrão!

Ouvi o boi mugindo
Vi o bezerro mamando
nas tetas caídas da vaca
Cheirei a bosta no pasto
Molhei-me na chuva mansa
Senti o perfume puro
das belas flores do campo!

Vislumbrei a plantação de algodão
O feijão brotando, o cafezal carregado
A mandioca cozida e tirada
           daquele chão!
E ficou aqui na lembrança
o mastro de São João
e o gosto do frango assado
arrematado no leilão!

Lembro a mulher rezadeira
Carregando a santa da devoção
no andor todo enfeitado de papel crepom.
O murmurar do "ORA PRO NOBIS"
nas bocas murchas das velhas sem dentes,
vestidas com vestes pretas,
as línguas grandes, ferinas
e o cheiro forte e ruim da urina.

E os gritos da parideiras?
As pobres tinham uma única função
a de parir um moleque , todo ano.

Lá vem a mulher lavadeira
com seu canto esganiçado
Rodilha firme na cabeça
cantando sempre a repetida canção!
Lavando a roupa no rio,
quarando no quarador
azulando de tanto anil!
Achando o mundo varonil!
O cheiro daquele sabão
que borbulhava no tacho
feito no fogo de chão!

Assopração do ferro de brasa
Vestido branco engomado
E vi a minha mãe vermelha
perto do fogão de lenha.
Parece que já vivi
uma centena de anos!

A andança por atalhos
pra visitar os compadres
Meu pai caminhava à frente,
lanterna acesa na mão
pra clarear a trilha maçante!

Quando caia a noite
estava aceso o lampião.
Dormia cheia de sonhos,
cobiçando o moço fazendeiro
que cavalgava imponente
na alameda de ciprestes.
Eu era, no doce sonho,
a cabrocha tão vaidosa
e ganhava um doce beijo
no gazebo de treliça.

No baile do Dia de Reis
Arrastava os pés no terrreiro
Sanfona de fole ingênuo,
O cheiro da alfazema
misturado ao suor azedo
dos homens suados
com lenço amassado na mão.

Com tanta recordação
enriqueci o coração.
Rascunhei telas patéticas
com tintas combinadas
de dor, de ódio, de amor!
           
        

SUCUMBI

SUCUMBI
                          Vera Popoff

Quando me dei conta
Já era tarde demais!
Sucumbi à dor!
A alegria já não era tanta
O fogo ardente já não queimava
A espera desesperava
O sorriso caiu da boca
     perdeu sentido!
As palavras se esvaziaram
As promessas se descumpriram
As mãos firmes, enfraqueceram
As ilusões viraram cinzas
Os espaços se limitaram
Os buracos se afundaram
Os fracassos se avolumaram
A abundância ficou tão pequena!
As amarras se apertaram e
se tornaram nós cegos!
A liberdade se aprisionou
num canto do coração.
Os pensamentos se estreitaram
Os limites se impuseram tão castradores!
As canções emudeceram
O silêncio ficou profundo
A solidão é "deste tamanho"!
Os amigos foram embora,
mas também já não fazem falta.
Sucumbi à dor!
Morri com vida
Não tem mais jeito
Vou para o quarto
tentar dormir!

TRISTEZA

TRISTEZA
                              Vera Popoff

Com as pedras cinzas da tristeza
Construí o meu ser e arquitetei o meu viver
A tristeza não me incomoda
E pode ter muitas cores
com um pouco de imaginação.

A tristeza é sutil, quieta e até gentil
Faço dela , a companheira
Valho-me dela para encontrar
e descobrir, afinal,  quem sou eu!

Da tristeza extraio lascas toscas
e faço minhas esculturas.
Extraio brutos diamantes
e vou, com cuidado, lapidando.

Respiro o ar bucólico
com o  aroma da tristeza
Encho os pulmões de ar
E eles fazem a conversão
O sangue pobre fica rico,
  quanta oxigenação!

A tristeza cabe em mim.
Tem o tamanho exato do meu peito
Ela bole comigo , faz-me abalada,
emocionada , mas nunca desabitada.
Já não me reconheço sob risos levianos
Não habito sob tetos com as telhas da hipocrisia.

Quando resolver sorrir
Vou sorrir inteira!
Quando chorar
As lágrimas serão púrpuras
Farei jorrar o meu sangue
nos pedaços de caminho
que sobraram para mim!



ASSIM ...ASSIM...

ASSIM ...ASSIM...
                                            Vera Popoff

Assim...assim..
esqueci meu endereço.
Já não discuto preço
A fome que sinto é pouca
Para a sede de beber
tenho a água que satisfaz.
Com  direito adquirido
dei as costas ao que é mordaz
Não uso roupa apertada
remendo a que está rasgada
O sapato é velho e folgado
Já nem fico mais avexado,
Digo não sem ficar corado
       ou acanhado.
Não atendo mais telefone,
rasguei agenda  com nomes,
decidi pela solidão
sem ter que pedir perdão!
Acordo de madrugada,
faço o sinal da cruz
Sem repetir oração
Cumprimento o sol que nasce
Recolho um ramo verde
É a minha superstição
À mesa , café com pão
O canto do sabiá
é o som que penetra no coração!
Se me chamam
eu finjo que não escuto,
já tenho muita companhia:
- a rosa desabrochada
-a dália amarelada,
-a fruta adocicada,
-a quietude preservada
-a paz, enfim, conquistada.
Desisti da competição
Contento-me com o que tenho à mão.
Já não frequento festa , tampouco,
      encontro e reunião.
Assim...assim...decidi a vida.
Domino meu pouco espaço
São dois mil e oitocentos metros
Conheço cada palmo
do chão pisado e repisado,
plantado e replantado.
Conto as frutas do pé
Sei quantas estão bicadas,
maduras e esverdeadas.
As folhas no chão caídas
se ajuntam e são o meu tapete
A rede é a minha cama
Meu chão ladrilhado de grama.
Já não faço aniversário
e nem dou os parabéns!
Não digo que o feio é lindo
para agradar o camarada.
Não digo amém, por favor
ou  com licença, seu doutor!

É assim...assim...
Descobri um pouco tarde,
mas ainda não morri.