quinta-feira, 30 de junho de 2016

PIEGUICE

PIEGUICE
                           Vera Popoff

Já nasci piegas
Falo do amor,
dos encontros, reencontros
Falo das mesmices ,
escrevo o banal,
a rotina humilde,
a rotina tola,
falo do fugaz
e não sinto fulgência
neste meu falar.
Falo das sandices
rimo babaquices
que hão de doer ouvidos
e ferir vernáculos,
que hão de soar cretino
e acabam na lata do lixo!

O que esperar, enfim,
Da mulher setenta
que perdeu o prumo
que procura ares
que sufoca as dores
que sente só saudade
que passou da idade
que sorri com a boca,
mas chora com a alma
que se desespera
para encontrar um eixo
onde ainda possa
arriscar  um giro???

MORRER DE TRISTEZA

MORRER DE TRISTEZA
                                                   Vera Popoff

Eu vou morrer do mal da tristeza!
Com os olhos fitando o espaço vazio
A boca murchada e calada
A falta da fome comida
A sede bebida com os lábios cerrados.
        Todo o riso sumido...
O tédio esperando o tempo
O tempo preenchido de tédio.
O olhar sem enxergar, sem chorar
A pele sem mais sentir
E não ter em quem esfregar e apertar.

Eu vou morrer do mal da  tristeza!
Definhada e acabada
Aniquilada e feito terra arrasada.
-Quer morte mais bem morrida?

Os braços que , há tempos, não abraçam!
O pé que já não sente o chão
A mão que não acarinha ou afaga
O amor que não beija o corpo
O corpo que não se entrega
       ao desejo, à paixão!
O suor não exala odor
A cor do mundo tão desbotada!
O Universo torcendo contra
As traições tocando no meu ouvido
Mil mágoas me torturando!

Ah...que morte!
Que morte mais bem morrida!!

PROCURO UM LUGAR

PROCURO UM LUGAR
                                            Vera Popoff

Não sou daqui
Não sou dali
Não venho de canto algum
Não tenho um torrão pra voltar
Depois da ilusão morrida
da beleza sumida
da pele partida
das rugas mostrando
os desdouros da vida!
Não tenho torrão pra voltar
      e esperar
o acabamento chegar.

Preciso procurar e achar
Lugar com cheiro de flor,
Na janela uma fenestra
para entrar um raio de sol bem quentinho,
Um chinelo de lanzinha
Um xale bordado, com franjas
pra acomodar o meu cansaço
e agasalhar as lembranças.

Preciso d'uma porta com fresta
pra ver o dia passar
Perder o meu olhar num vazio
Ouvir o galo cantar
Lembrar de minha mãe e do meu pai
Contar histórias e fingir
que tem alguém para ouvir!

Também vou providenciar
a cadeira de balanço.
Precisa ser rangedeira
quero ouvir o seu chiado
pra poder me distrair
    e nem sentir
a minha entrega e desamparo.

E quando cair a chuva
Vou me abrigar na varanda
Ouvir o ruído gostoso
dos respingos no telhado.
E até vou querer um gato
enroscado nos meus pés!

Quando a noite chegar
Vou por tramelas nas portas
Ajoelhar e rezar:
-uma Salve Rainha
-uma Ave Maria
-e o Ato de Contrição
Abotoar a camisola
de alva e fina  cambraia
cobrindo o meu corpo débil.

Puxarei a coberta
agasalhando as pernas,
agora cheia de dores, gemendo
as tantas fraquezas.
Com o coração enregelado
Pedirei à noite que se vá muito depressa,
pois sinto medo do escuro.

Vai ser tarde pra rogar
Mas se for possível , me arrumem
uma cova bem larga
Será a última parte que me cabe
na  derradeira morada,
Por favor, plantem ao lado
um pé de rosa amarela
Ou pode ser apenas,
um suave lírio do campo!
Coloquem uma cruz bem branquinha,
O quadro de Nossa Senhora e
não esqueçam da vela acesa
pra alumiar o meu último sono profundo!



PRAGUEJANDO

PRAGUEJANDO SOBRE UMA TERRA PERDIDA
                                                                    Vera Popoff

Vou quebrar a louça branca
Vou rasgar e fazer trapos
da colcha de retalhos
Golpear a renda clara da janela
Vou arrancar todas as flores
E apodrecer todos os frutos
Desmoronar as paredes que abrigaram-me
Arrebentar todas as cercas.
Vou parar a correnteza do Rio Bonito
   e fazer secar a cachoeira.
Tingirei as margaridas com o meu sangue
e trazer os lírios brancos para o asfalto.
Emudecer os passarinhos
e macular todas as pombas.
Esfriar o sol luzente
Enlutar a lua cheia
Derrubar a estrela D'alva
e apagar todas as outras
     lá do céu!
Vou fechar as rosas da minha roseira
E tampar em vidro fosco
o perfume dos jasmins.
Daquelas noites de aspirações e sonhos
Vou apagar a luz dos vagalumes
e praguejar ajoelhada
sobre a terra que de mim
foi arrancada!

LOUCO AMOR II

LOUCO AMOR II
                                         Vera Popoff

No  boteco na Esquina da Saudade
Vou rolar a longa madrugada de amargura
Acendendo um cigarro
e queimando a alma no fogaréu do inferno!

O meu amor já nem são as cinzas
São as espirais d'uma fumaça perdida.
Entristece-me esse luar
que já foi nosso!

Tua imagem sim, inda é cristalina
         na lembrança.
É mais pura e amada
quanto mais eu  bebo e me embriago.

Releio as tuas cartas
no meu pensamento vago.
Vou levar o teu rosto, o teu abraço,
os teus carinhos e o teu beijo
para o sepulcro.

Fui amada, mas não gemi do gozo,
da dor do êxtase , nos teus braços.
Beijei bocas, poetei amores,
mas é o gosto da tua língua
que veste de calor
o meu semblante!


       

FALAR, FALAR

FALAR, FALAR
                                       Vera Popoff

Tua boca é de falar,
mas fales pouco.
O necessário, apenas!
E de doçura...construa tuas palavras
Reflita e torna-te maior
Atira longe ...a pequenez do dia.

Que a tua boca de falar
Não fale nada de estreitar, de machucar
Que a tua boca de falar
Não cuspa palavras de magoar.

O teu silêncio pode engrandecer
O teu falar jogado fora
Pode destruir , esfacelar, matar!

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FIM DE CICLO

FIM DE CICLO
                                 Vera Popoff

Completei o ciclo padrão
O roxo das olheiras,  joguei ao chão
Abandonei a disciplina exagerada
Esqueci todas as saudades exasperadas
Já não sinto exaurimento
e disse adeus aos tormentos.

Falo das minhas ideias
sem nenhuma pretensão de veracidade
Movediça...caio na graça do mundo
porque estou esfomeada.

Nem percebo se a mesa é de laca,
feita d'um toco lascado ou de lata enferrujada
Quero apenas , sentar-me e alimentar-me
de alguns sonhos que restaram.

Simular, fingir, fazer média, beber o tédio?
            Não dá mais!
Vou escancarar, desamarrar
Mandar tudo para aquele lugar!
Rasgarei os retratos empoeirados
Deitar e rolar
Hábitos antigos , abandonar!

Não vou fechar a cortina de renda.
Quero a janela sem sombras.
O chão pisado não precisa ser de tábua encerada,
mosaicos pintados , tão pouco de  ladrilhos decorados
Basta que aguente os meus pés...
 de andar e dançar , sem pudor

Enfim, enfim...
Libertei-me de costumes ,
desinquietei-me !
Joguei um balde d'água fria
em todas as frivolidades.

Estou extenuada das cartas marcadas
das inverdades vomitadas
da hipocrisia desenfreada.
Vou seguir o meu rumo...
Começo , dobrando a esquina
          à esquerda!!

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