quinta-feira, 22 de novembro de 2018

CUIDAR DE MIM

CUIDAR DE MIM
                                             Vera Pópoff

Não olho o relógio
As minhas horas sou eu
Eu sou as minhas horas
Coordenadas e combinadas
Eu não as perco
Elas nunca me perdem.

Quando a brisa sopra
na janela sempre aberta
A consciência desperta
Espreito a aurora
Os pássaros saem dos ninhos
Levanto do berço que me aninhou.

Saio para a rua
Conheço cada pedaço
onde marco o meu passo
Faço a vigília sob o céu indeciso
Será azulado?
Ficará carrancudo e nublado?

Minha prece são as lembranças
O humor decidirá o movimento da dança
Allegro , Andante ou Adagio
Ou mesmo uma sonata
que faz debulhar meus olhos
e mergulhar minh'alma em Abrolhos.
FOTO DO AMIGO CLEDSON FALQUEIRO

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

BURACO VERDE

Um buraco verde
Vera Popoff
Ouço vozes chamando,
insistindo, buscando onde estou.
Finjo não ter ouvido ...
Nem a voz, nem o grito, nem o gemido .
Minha cabeça está enfiada
num buraco verde .
Eu mesma cavei
Eu mesma plantei a cabeça
que brotou,
enraizou,
decidiu e ali ficou.
Exaurida de esperar a esperança
que não chega,
Desiludida da ilusão esmagada,
Desanimada de erguer a cabeça
para um céu que não responde,
De chamar pela verdade que se esconde,
Enterrei a cabeça num buraco verde.
Feliz? Não sei.
Mais confortável , talvez!
Escutando pouco.
Falando o necessário, apenas
Exorcizando as minhas duras penas.
No buraco verde desfolho as ideias,
uma a uma
Lanço as sementes que irão brotar
um dia.
Engalho as minhas fantasias.
E só tenho olhos para a flor
que inda não abriu
O fruto verde que será tão doce,
quem sabe...num outro novo abril.

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LAMENTO II

LAMENTO II
Vera Popoff
Eu queria ser alegre ,
Mas sou tão triste!
...
Eu queria ser flor,
mas sou o espinho!
Eu queria ser carne,
mas sou a pedra!
Eu queria ser o vinho,
Mas sou a água!
Eu queria ser o rio,
mas sou o córrego!
Eu queria ser o mar,
Mas sou areia!
Eu queria ser o fogo,
Mas sou as cinzas!
Eu queria ser a filosofia,
mas sou a banalidade!
Eu queria ser esperança,
Mas sou o desespero!
Eu queria ser presença,
Mas sou uma saudade!
Eu queria ser verdade,
Mas sou a mentira!
Eu queria ser coração,
mas sou a cética razão!
Eu queria ser paixão,
Mas sou a indiferença!
Eu queria ser a fé,
Mas sou a descrença!
Eu queria ser a pureza,
mas sou a crueza!
Eu queria ser inteira,
Mas sou apenas, cacos!
Eu queria ser o vermelho,
Mas sou o bege!
Eu queria ser a brisa,
mas sou o ventania!
Eu queria ser o nascer do sol,
Mas sou o bucólico ocaso!
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MEUS OLHOS

IMAGENS
MEUS OLHOS

                                                           Vera Popoff
Meus olhos enxergam tão pouco!
Embaralham e já não pincelam paisagens....
Um astigmatismo deforma a imagem da minha fé!
Cataratas apagam algumas ilusões
Lágrimas que não umedecem, apenas,
entristecem.
Os óculos já não harmonizam o meu rosto
Hoje, são penduricalhos mal equilibrados ,na cara desapontada .
Encosto o livro quase no nariz
Leio poucas palavras,
Não distinguo, no céu, a nuance,
o matiz!
Fotos desbotadas
Telas apagadas
Tons misturados
Névoas na janela
Caminhos , quase todos,
já percorridos.
Derradeira estrada olhada
com a nitidez do coração .
A visão turva , enxerga bem , o amor
O pensamento ávido dá os ombros,
às dificuldades e à dor!

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PENSAMENTOS

PENSAMENTOS
 
 

                        
 
 
 
Pensamentos

                        Vera Popoff
Escondo os pensamentos,
não os prendo, apenas escondo.
Eles saem, voam , viajam,...
constróem, amam e enriquecem
quando desejam ou
exasperam-se, quando indignados.
Entretanto , ficam protegidos
da intolerância e da maledicência .
Num paradoxo, estão mais libertos
quando guardados.
Chegam nos intocáveis zombeteiros
Detonam os injustos justiceiros
São agudos contra os farsantes
E debocham dos vulgares e patéticos.
Atingem em cheio as crueldades insólitas
Cospem nos ignóbeis tiranos.
Enchem-se de ternura pelos oprimidos
Condenam ao inferno,
um a um...os opressores.
Amaldiçoam os que fazem sofrer
uma criança.
São implacáveis com os cruéis que pisam desamparados e assassinam
os desfavorecidos.
Mas sorri e aconchega um irmão
perdido

 
 
 

ENVELOPE FECHADO

ENVELOPE FECHADO
                                                Vera Popoff
Tudo que não pode acontecer...acontece!
Tudo que não pode ser ...é!...
No momento, tudo dói,
tudo é subtraído , tudo causa espanto.
Carteiro na porta com olhar sem sonhos
A correspondência não foi aberta
e nem será!
Deixa pra lá!!
Envelope fechado pode guardar uma esperança.
Não a deixo escapar!
Vou esperançar...

LABIRINTO

LABIRINTO
                               Vera Popoff


Labirinto
                                                   Vera Popoff
Vivo um momento difícil!
Moro num labirinto....
Entrei ,
não encontro a saída.
Decido pela alienação
Assim , não enlouqueço,
mas preciso ser louca ,
se desejo viver.
Resolvo cuidar de flor
e conto-lhes as pétalas
Numa alquimia , separo e misturo os aromas.
Descontente, mudo o rumo do dia
Misturo tintas, pincéis e lixo a madeira,
lixo um caixote,
lixo um banco velho, do avô,
lixo os arranhões da minh'alma.
E vou ao fogão...
Cozinho o grão e amasso o pão .
Abro um livro, leio, ressalto a frase tocante e grifo e rabisco.
Volto à máquina antiga e passo uma tarde , cosendo :
remendo e remendo
as saudades
as lembranças
As destemperanças !
E volto às notícias, que azedam
o testado humor!
Tem um bom tempo que não são boas!
Indigno-me e impaciento-me.
Procuro um amigo que diz...
coisa boa de ouvir.
Um passo pra frente
Dois passos à esquerda .
O livro esquecido me espera,
aberto na página lida e relida .
Repasso a leitura
Invento uma história bonita
Agrado o meu coração
Repouso...
Amanhã...reinicio do ponto,
onde a reta da vida começa
e recomeça.

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