domingo, 22 de outubro de 2023

ENVELHECIMENTO

ENVELHECIMENTO

                                       VERA POPOFF



Espirro, soluço, rio, tusso e...

           escapa xixi. Vou tomar outro banho, meio banho, higiene a cada hora, metade da hora, um quarto da hora. Está tudo bem. Faz parte do envelhecimento.

Meus pés doem, ficaram tortos, passei a calçar numeração quarenta. Com uma metro e cinquenta e oito de altura e calçando quarenta. Vou levando. afinal...envelheci. 

Pés tortos, xixi na calça, todo tipo de dor, dentes quebrados, mastigação péssima, anticoagulante em dose cavalar impedem-me ter certos cuidados que sempre  foram a minha rotina. 

Crises de tristeza profunda, ansiedade com rajadas de 100km/hora , barulho insuportável dos vizinhos.

Rejeição forte ao lugar onde vivo, restrição de movimentos , fim da  liberdade de ir e vir sem depender de ninguém . Já não sou quem fui, não rio, não choro, mas exaspero-me. Tudo junto misturado.

Mas a dor que mais dói é ter perdido a alegria. O traço marcante desta longa vida foi sempre, a alegria. Perdi...perdi...perdi...

Que fase cruel. A paz e o alento, nas madrugadas e só. Já não faço questão de dormir . Penso em trocar , brevemente, o dia pela noite. Deitar e dormir após o almoço e levantar ás 22 horas .Passar a madrugada, que já é meu consolo, meu tempo, meu espaço.

Envelhecimento do corpo é normal. Passamos por isso. Incomoda , mas é suportável.

Mas o envelhecimento da alma dói tanto, tanto que já somos alguém que nunca fomos.

O vazio. Só o vazio...



domingo, 27 de junho de 2021

SEM AMIGOS

 SEM AMIGOS

                  Vera Popoff

Amigos?

Eram muitos

Eram tantos!

Hoje, já não tenho boca esfaimada de palavras

para trocar com alguém,

para casos que interessam,

para risos que comemoram o nada.


Alguns se despediram e partiram

outros , os despedi e sumi,

tantos deles, já não lembro-me , semblantes

outros, não valeram levar adiante.


Eu ria ,  cercada , envolvida, sentindo-me querida

Quando me dei conta do vazio,

 da boa palavra  na crucial hora,

juntei meus retalhos e fui embora.

Acabei aqui, onde sempre , na  verdade, estive...

                só!


Não! Nenhuma dor ou saudade

A solidão curou-me de anseios tolos,

de encontros desnecessários,

de troca dos favores frívolos

da risada amarela de angústia

do saco cheio do disfarce alegre.


Percebi tarde, mas em tempo

de estudar-me por dentro,

do autoconhecimento e do gozo 

que é a solidão sincera

comigo mesma.


Feliz? Nem sei

Felicidade nunca foi sonho.

-a bravura de viver como quero

-a coragem de ser e não ter

-a paz de nunca pedir perdão

eu mesma afago o meu coração.


enfim, sou deveras Vera!