sábado, 6 de agosto de 2016

TRISTEZA

TRISTEZA
                              Vera Popoff

Com as pedras cinzas da tristeza
Construí o meu ser e arquitetei o meu viver
A tristeza não me incomoda
E pode ter muitas cores
com um pouco de imaginação.

A tristeza é sutil, quieta e até gentil
Faço dela , a companheira
Valho-me dela para encontrar
e descobrir, afinal,  quem sou eu!

Da tristeza extraio lascas toscas
e faço minhas esculturas.
Extraio brutos diamantes
e vou, com cuidado, lapidando.

Respiro o ar bucólico
com o  aroma da tristeza
Encho os pulmões de ar
E eles fazem a conversão
O sangue pobre fica rico,
  quanta oxigenação!

A tristeza cabe em mim.
Tem o tamanho exato do meu peito
Ela bole comigo , faz-me abalada,
emocionada , mas nunca desabitada.
Já não me reconheço sob risos levianos
Não habito sob tetos com as telhas da hipocrisia.

Quando resolver sorrir
Vou sorrir inteira!
Quando chorar
As lágrimas serão púrpuras
Farei jorrar o meu sangue
nos pedaços de caminho
que sobraram para mim!



ASSIM ...ASSIM...

ASSIM ...ASSIM...
                                            Vera Popoff

Assim...assim..
esqueci meu endereço.
Já não discuto preço
A fome que sinto é pouca
Para a sede de beber
tenho a água que satisfaz.
Com  direito adquirido
dei as costas ao que é mordaz
Não uso roupa apertada
remendo a que está rasgada
O sapato é velho e folgado
Já nem fico mais avexado,
Digo não sem ficar corado
       ou acanhado.
Não atendo mais telefone,
rasguei agenda  com nomes,
decidi pela solidão
sem ter que pedir perdão!
Acordo de madrugada,
faço o sinal da cruz
Sem repetir oração
Cumprimento o sol que nasce
Recolho um ramo verde
É a minha superstição
À mesa , café com pão
O canto do sabiá
é o som que penetra no coração!
Se me chamam
eu finjo que não escuto,
já tenho muita companhia:
- a rosa desabrochada
-a dália amarelada,
-a fruta adocicada,
-a quietude preservada
-a paz, enfim, conquistada.
Desisti da competição
Contento-me com o que tenho à mão.
Já não frequento festa , tampouco,
      encontro e reunião.
Assim...assim...decidi a vida.
Domino meu pouco espaço
São dois mil e oitocentos metros
Conheço cada palmo
do chão pisado e repisado,
plantado e replantado.
Conto as frutas do pé
Sei quantas estão bicadas,
maduras e esverdeadas.
As folhas no chão caídas
se ajuntam e são o meu tapete
A rede é a minha cama
Meu chão ladrilhado de grama.
Já não faço aniversário
e nem dou os parabéns!
Não digo que o feio é lindo
para agradar o camarada.
Não digo amém, por favor
ou  com licença, seu doutor!

É assim...assim...
Descobri um pouco tarde,
mas ainda não morri.



          



CENAS DA INFÃNCIA I

CENAS DA INFÃNCIA I
                                                   Vera Popoff

Minha mãe tece num canto
No canto mais claro da sala morna,
         cheia de sombras .
Suas mãos compassadas tecem doçura.

Meu irmão que é pequenino,
mas de tamanho maior que o meu,
olha fixo num outro canto
da sala morna , cheia de sombras,
da sala grande, da sala feia!

Encolhida , percebo o quadro de nostalgia,
        sinto arrepios!

Sinto medo ao ver ao lado
o meu pai sentado,  jornal nas mãos...
Receio cruzar o seu  olhar grande e severo
     olhar quase fantasma
     olhar tão rijo
     olhar de ternura tão escondida!
O seu olhar é a desarmonia daquele lugar.

Minha mãe é tão bonita , é tão sensível!
O meu irmão segura firme a minha mão,
percebe o medo no meu coração.
Meu pai é de pouca fala, queixa cansaço,
exige silêncio ...a quietude do ambiente
                  não lhe faz contente.

Sinto tanto constrangimento !
Deparo-me com aquele olhar
e a  minh'alma consegue gelar
Vou me dobrar, vou me esconder, vou me  encolher
 -Ai, sou tão pequena e já quero morrer!

Que noite de melancolia!
Minha mãe é tristeza vaga...
Meu irmão tem o rosto pálido e o olhar
perdido num sonhos bom!
Mas os meus sonhos são pesadelos!
Vejo vultos que me assustam
Sinto o vento passando a porta
assaltando o meu coração!

Minha mãe à luz da lamparina
é imagem imaculada!
Meu irmão é um anjo bom,
tem gestos trêmulos , é emoção!
Sua boca bem torneada  mostra um
         choro engasgado
É tão menino, mas tão protetor!

O meu pai tem amor enrustido
Sua mão não me faz carinho!
E o cheiro do querosene
arde a narina e estraga acena!


Eu quero dormir
Preciso urgente d'um amanhecer!
Mas não sinto sono!
O quarto está escuro, mas não reclamo.
Não digo nada ...falta coragem,
vejo fantasmas e...não sai palavra.





NATÁLIA POPOFF

NATÁLIA POPOFF
                                          Vera Popoff

Nasci do bendito ventre
   de Natália Popoff

Cresci grudada, quase amarrada,
 tão apertada  e aconchegada no seio
         de Natália Popoff.

Suguei a sua seiva
Arranquei a sua carne
Usei o seu cérebro
para me construir.

Natália Popoff  nunca foi gente comum
Não me lembro de minha mãe suada ou
despenteada , desarrumada ou mal humorada!

Natália Popoff  era tão bonita!
Beleza doce, mágica e suave
Jeito cuidado, pele macia,
gestos elegantes, maneiras finas...

Natália Popoff falava baixo
com sonoridade pianísssimo.
Cada palavra entrava no peito do ouvinte
e ficava...forte, inesquecível!

Natália Popoff não era "do lar",
        preferia as letras
Amava os poetas , lia Castro Alves,
Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu.
Como se deliciava com as falas
     de José de Alencar.
E discutia com Machado de Assis!

Seus olhos...Ah, os seus olhos!
Um olhar que enternecia, que nos estremecia
           de emoção!
Olhos da cor do mel,
assim como a sua boca
contornada e besuntada do mel
             da flor!

As mãos de Natália Popoff
eram de renda e teciam rendas.
Tão pequeninas e brancas,
mas fortes e  se agigantavam criando artes.
Seguravam com energia, sem machucar
o filho, a filha , seu homem...meu pai.

Natália Popoff foi mais que mãe!
Foi mestra, foi conforto, foi coração,
foi pele, foi confiança, foi tanto amor!
Foi afirmação, o centro e a coragem!
Foi o sangue quente das nossas veias
O cérebro do nosso lar!
Foi a indicação dos nossos caminhos
a luz dos nossos sóis , a lua das nossas noites.

Eu sentia tanta veneração!
Que orgulho ao olhar seu rosto e dizer:
          -Minha Mãe!!
Nela , eu me ancorava e me envolvia e me deleitava!
Ela ainda era o porto seguro do meu irmão
              e do meu pai.

Sou Vera Popoff porque nasci
         de Natália Popoff.


domingo, 10 de julho de 2016

NÃO SOU BEGE

Não sou bege
                         Vera Popoff

O céu tem nuances variadas
Foi pintado d'um azul luminoso
Mas é comum transformar-se
Pinceladas cinzentas ou róseas
Iluminação dourada ou da cor do fogo.

As matas,  com todos os tons de verde
É verde para todo gosto e apreciação
Não há como viver omissão
Diante do espetáculo da esperança
desenhada, aquarelada, esperançada.

Flores rosadas, vermelhas, alaranjadas,
           roxas e arroxeadas
Azuis, liláses, amarelas , misturadas,
            Sempre, tão bem combinadas!

Vou seguindo o modelo proposto
Imaginando o meu mundo pintado
com as cores do arco-íris, das águas do mar,
da terra, do fogo, dos elementos tão
          lindamente naturais
 São variações nada tristes ou banais.

E imagino minh'alma desenhada
Alegremente apresentada ao dia
Ela desperta com a cor da alegria
Passa as horas fugindo da nostalgia
e da falta de graça do cinzento e do bege
Afinal, tenho sonhos de vida
Não sou uma alma   bege e  herege.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

MENINA TRAQUINA

MENINA TRAQUINA
                                      Vera Popoff

Menina traquina
que corre, que pinta, que borda,
que assanha, sorri, esbanja alegria
         sob a luz do dia.

Menina traquina
que canta , que dança, rebola,
e que nunca se enrola, que atua
        sob a luz da lua.

Menina traquina
que pula , saltita, que reza
a Ave Maria , promete, peleja
   na porta da igreja.

Menina traquina
que vira , desvira, abana o calor
Quer alcançar o horizonte
    lá" trás do monte."

TUDO DIFERENTE

TUDO DIFERENTE
                                     Vera Popoff

Tudo está diferente
Eu não conheço mais nada!
Perdi-me no tempo.
Esqueci de acompanhar a evolução
e portanto, vivo num mundo, sem noção!

Virei uma estranha
que nem se acanha
com o desconhecimento
da modernidade.
Pouco importa-me
se o seu espaço
 causa-me estranhamento.
Pouco importa-me
se o meu espaço
causa-lhe descontentamento.

Os lugares que frequento
são serenos e amenos.
Não convivo com competições
Nem desejo tantas aptidões!
O meu cardápio é o arroz com feijão.
Quando muito,  observações desapercebidas,
pelo novo mundo das tantas ambições.