sábado, 6 de agosto de 2016

PARA O MEU AMOR I

PARA O MEU AMOR I
                                                   Vera Popoff

Deixei a janela aberta
e o vento entrou,
e o sol entrou.
O dia clareou.
Reluziam no coração
tanta esperança e paixão!

Como é bom deixar a janela aberta
       para o vento entrar
       para o sol entrar...
Como é bom deixar o coração aberto
       para o amor entrar...

Deixei a janela aberta
Deixei o coração aberto
e o amor entrou,
subiu à cabeça como vinho  novo.
E a alma dançou uma dança
    nada comportada.
E caí de joelhos ao chão
vencida pela paixão,
como a mais humilde,
implorando um beijo,
entregue, frágil , cheia de desejo.

Que sorte ter amado assim!
Que arrebatador sentimento!
Quanta inquietação e desgastação!
E chorei baixinho...
Murmurei palavras brotadas da paixão
     com a perda dos sentidos e
         o  desmaio da entrega!

CENAS DA INFÂNCIA ii

CENAS DA  INFÂNCIA II
                                                      Vera Popoff

Lugar nem bendito, nem maldito
Fez tristeza, fez alegria.
Lugar da terra arranhada,
da terra manchada
que fez nódoas no coração.
Com sentimentos de pesar ,
usei guache lutuosa e pintei
a tela triste de lembrar.
Bordei com ponto cheio
o tecido onde embrulhei
o bonito para recordar.

Andei com os pés descalços
Por caminhos de areião
Montei na jardineira do senhor Tonhão
que atolava no barro mole
e até mesmo no torrão!

Ouvi o boi mugindo
Vi o bezerro mamando
nas tetas caídas da vaca
Cheirei a bosta no pasto
Molhei-me na chuva mansa
Senti o perfume puro
das belas flores do campo!

Vislumbrei a plantação de algodão
O feijão brotando, o cafezal carregado
A mandioca cozida e tirada
           daquele chão!
E ficou aqui na lembrança
o mastro de São João
e o gosto do frango assado
arrematado no leilão!

Lembro a mulher rezadeira
Carregando a santa da devoção
no andor todo enfeitado de papel crepom.
O murmurar do "ORA PRO NOBIS"
nas bocas murchas das velhas sem dentes,
vestidas com vestes pretas,
as línguas grandes, ferinas
e o cheiro forte e ruim da urina.

E os gritos da parideiras?
As pobres tinham uma única função
a de parir um moleque , todo ano.

Lá vem a mulher lavadeira
com seu canto esganiçado
Rodilha firme na cabeça
cantando sempre a repetida canção!
Lavando a roupa no rio,
quarando no quarador
azulando de tanto anil!
Achando o mundo varonil!
O cheiro daquele sabão
que borbulhava no tacho
feito no fogo de chão!

Assopração do ferro de brasa
Vestido branco engomado
E vi a minha mãe vermelha
perto do fogão de lenha.
Parece que já vivi
uma centena de anos!

A andança por atalhos
pra visitar os compadres
Meu pai caminhava à frente,
lanterna acesa na mão
pra clarear a trilha maçante!

Quando caia a noite
estava aceso o lampião.
Dormia cheia de sonhos,
cobiçando o moço fazendeiro
que cavalgava imponente
na alameda de ciprestes.
Eu era, no doce sonho,
a cabrocha tão vaidosa
e ganhava um doce beijo
no gazebo de treliça.

No baile do Dia de Reis
Arrastava os pés no terrreiro
Sanfona de fole ingênuo,
O cheiro da alfazema
misturado ao suor azedo
dos homens suados
com lenço amassado na mão.

Com tanta recordação
enriqueci o coração.
Rascunhei telas patéticas
com tintas combinadas
de dor, de ódio, de amor!
           
        

SUCUMBI

SUCUMBI
                          Vera Popoff

Quando me dei conta
Já era tarde demais!
Sucumbi à dor!
A alegria já não era tanta
O fogo ardente já não queimava
A espera desesperava
O sorriso caiu da boca
     perdeu sentido!
As palavras se esvaziaram
As promessas se descumpriram
As mãos firmes, enfraqueceram
As ilusões viraram cinzas
Os espaços se limitaram
Os buracos se afundaram
Os fracassos se avolumaram
A abundância ficou tão pequena!
As amarras se apertaram e
se tornaram nós cegos!
A liberdade se aprisionou
num canto do coração.
Os pensamentos se estreitaram
Os limites se impuseram tão castradores!
As canções emudeceram
O silêncio ficou profundo
A solidão é "deste tamanho"!
Os amigos foram embora,
mas também já não fazem falta.
Sucumbi à dor!
Morri com vida
Não tem mais jeito
Vou para o quarto
tentar dormir!

TRISTEZA

TRISTEZA
                              Vera Popoff

Com as pedras cinzas da tristeza
Construí o meu ser e arquitetei o meu viver
A tristeza não me incomoda
E pode ter muitas cores
com um pouco de imaginação.

A tristeza é sutil, quieta e até gentil
Faço dela , a companheira
Valho-me dela para encontrar
e descobrir, afinal,  quem sou eu!

Da tristeza extraio lascas toscas
e faço minhas esculturas.
Extraio brutos diamantes
e vou, com cuidado, lapidando.

Respiro o ar bucólico
com o  aroma da tristeza
Encho os pulmões de ar
E eles fazem a conversão
O sangue pobre fica rico,
  quanta oxigenação!

A tristeza cabe em mim.
Tem o tamanho exato do meu peito
Ela bole comigo , faz-me abalada,
emocionada , mas nunca desabitada.
Já não me reconheço sob risos levianos
Não habito sob tetos com as telhas da hipocrisia.

Quando resolver sorrir
Vou sorrir inteira!
Quando chorar
As lágrimas serão púrpuras
Farei jorrar o meu sangue
nos pedaços de caminho
que sobraram para mim!



ASSIM ...ASSIM...

ASSIM ...ASSIM...
                                            Vera Popoff

Assim...assim..
esqueci meu endereço.
Já não discuto preço
A fome que sinto é pouca
Para a sede de beber
tenho a água que satisfaz.
Com  direito adquirido
dei as costas ao que é mordaz
Não uso roupa apertada
remendo a que está rasgada
O sapato é velho e folgado
Já nem fico mais avexado,
Digo não sem ficar corado
       ou acanhado.
Não atendo mais telefone,
rasguei agenda  com nomes,
decidi pela solidão
sem ter que pedir perdão!
Acordo de madrugada,
faço o sinal da cruz
Sem repetir oração
Cumprimento o sol que nasce
Recolho um ramo verde
É a minha superstição
À mesa , café com pão
O canto do sabiá
é o som que penetra no coração!
Se me chamam
eu finjo que não escuto,
já tenho muita companhia:
- a rosa desabrochada
-a dália amarelada,
-a fruta adocicada,
-a quietude preservada
-a paz, enfim, conquistada.
Desisti da competição
Contento-me com o que tenho à mão.
Já não frequento festa , tampouco,
      encontro e reunião.
Assim...assim...decidi a vida.
Domino meu pouco espaço
São dois mil e oitocentos metros
Conheço cada palmo
do chão pisado e repisado,
plantado e replantado.
Conto as frutas do pé
Sei quantas estão bicadas,
maduras e esverdeadas.
As folhas no chão caídas
se ajuntam e são o meu tapete
A rede é a minha cama
Meu chão ladrilhado de grama.
Já não faço aniversário
e nem dou os parabéns!
Não digo que o feio é lindo
para agradar o camarada.
Não digo amém, por favor
ou  com licença, seu doutor!

É assim...assim...
Descobri um pouco tarde,
mas ainda não morri.



          



CENAS DA INFÃNCIA I

CENAS DA INFÃNCIA I
                                                   Vera Popoff

Minha mãe tece num canto
No canto mais claro da sala morna,
         cheia de sombras .
Suas mãos compassadas tecem doçura.

Meu irmão que é pequenino,
mas de tamanho maior que o meu,
olha fixo num outro canto
da sala morna , cheia de sombras,
da sala grande, da sala feia!

Encolhida , percebo o quadro de nostalgia,
        sinto arrepios!

Sinto medo ao ver ao lado
o meu pai sentado,  jornal nas mãos...
Receio cruzar o seu  olhar grande e severo
     olhar quase fantasma
     olhar tão rijo
     olhar de ternura tão escondida!
O seu olhar é a desarmonia daquele lugar.

Minha mãe é tão bonita , é tão sensível!
O meu irmão segura firme a minha mão,
percebe o medo no meu coração.
Meu pai é de pouca fala, queixa cansaço,
exige silêncio ...a quietude do ambiente
                  não lhe faz contente.

Sinto tanto constrangimento !
Deparo-me com aquele olhar
e a  minh'alma consegue gelar
Vou me dobrar, vou me esconder, vou me  encolher
 -Ai, sou tão pequena e já quero morrer!

Que noite de melancolia!
Minha mãe é tristeza vaga...
Meu irmão tem o rosto pálido e o olhar
perdido num sonhos bom!
Mas os meus sonhos são pesadelos!
Vejo vultos que me assustam
Sinto o vento passando a porta
assaltando o meu coração!

Minha mãe à luz da lamparina
é imagem imaculada!
Meu irmão é um anjo bom,
tem gestos trêmulos , é emoção!
Sua boca bem torneada  mostra um
         choro engasgado
É tão menino, mas tão protetor!

O meu pai tem amor enrustido
Sua mão não me faz carinho!
E o cheiro do querosene
arde a narina e estraga acena!


Eu quero dormir
Preciso urgente d'um amanhecer!
Mas não sinto sono!
O quarto está escuro, mas não reclamo.
Não digo nada ...falta coragem,
vejo fantasmas e...não sai palavra.





NATÁLIA POPOFF

NATÁLIA POPOFF
                                          Vera Popoff

Nasci do bendito ventre
   de Natália Popoff

Cresci grudada, quase amarrada,
 tão apertada  e aconchegada no seio
         de Natália Popoff.

Suguei a sua seiva
Arranquei a sua carne
Usei o seu cérebro
para me construir.

Natália Popoff  nunca foi gente comum
Não me lembro de minha mãe suada ou
despenteada , desarrumada ou mal humorada!

Natália Popoff  era tão bonita!
Beleza doce, mágica e suave
Jeito cuidado, pele macia,
gestos elegantes, maneiras finas...

Natália Popoff falava baixo
com sonoridade pianísssimo.
Cada palavra entrava no peito do ouvinte
e ficava...forte, inesquecível!

Natália Popoff não era "do lar",
        preferia as letras
Amava os poetas , lia Castro Alves,
Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu.
Como se deliciava com as falas
     de José de Alencar.
E discutia com Machado de Assis!

Seus olhos...Ah, os seus olhos!
Um olhar que enternecia, que nos estremecia
           de emoção!
Olhos da cor do mel,
assim como a sua boca
contornada e besuntada do mel
             da flor!

As mãos de Natália Popoff
eram de renda e teciam rendas.
Tão pequeninas e brancas,
mas fortes e  se agigantavam criando artes.
Seguravam com energia, sem machucar
o filho, a filha , seu homem...meu pai.

Natália Popoff foi mais que mãe!
Foi mestra, foi conforto, foi coração,
foi pele, foi confiança, foi tanto amor!
Foi afirmação, o centro e a coragem!
Foi o sangue quente das nossas veias
O cérebro do nosso lar!
Foi a indicação dos nossos caminhos
a luz dos nossos sóis , a lua das nossas noites.

Eu sentia tanta veneração!
Que orgulho ao olhar seu rosto e dizer:
          -Minha Mãe!!
Nela , eu me ancorava e me envolvia e me deleitava!
Ela ainda era o porto seguro do meu irmão
              e do meu pai.

Sou Vera Popoff porque nasci
         de Natália Popoff.