quarta-feira, 2 de novembro de 2016

METAMORFOSE

METAMORFOSE
                                    Vera Popoff

Estou perdida em mim mesma
Bem que eu queria encontrar-me,
vasculhar dentro de mim,
Espanar a poeira que me esconde
Derrubar as paredes que me prendem
Abrir as janelas que me guardam
tão bem guardada...que já não me encontro.

Ah, como eu queria espalhar-me
por espaços nunca ocupados,
percorrer atalhos nunca explorados,
pisar sobre as bombas enriquecidas
de todos os bloqueios ,
 num campo cruelmente minado.

Eu queria envolver-me numa aura
           de liberdade
Esquecer antigas e tristes histórias
Arrancar as limitações da memória
Nascer outra vez. Diferente, mais presente,
               mais contente .
 Expelir  tudo que sufoquei...
libertar e sentir  as emoções
        ardentemente!

Eu queria viver uma metamorfose
Ao invés de uma alma lagarta
Virar alma borboleta e voar...voar...voar...












 
 




terça-feira, 25 de outubro de 2016

AS MENINAS DO RETRATO

AS  MENINAS  DO RETRATO
                                                       Vera Popoff

Na cabeceira da cama
Galeria de retratos pendurados
São sempre das duas meninas
Uma dos olhos de mel,
Outra dos olhos de mar.

Os sorrisos são bonitos, puros , gentis
Os semblantes são a luz nos meus retratos
Mas hoje , tudo parece distante e tão abstrato!
Cismo e insisto em me machucar:- será??
Será que já foram um dia, a minha verdade?
Ou serão apenas delírio da minha avançada idade?

Já não sinto os braços envolvendo o meu pescoço
Já não ouço as vozes reclamando, pedindo, chamando:
               -Mãe! Mãe! Mãe!
Já não sinto o toque dos lábios , no meu rosto!

As meninas do retrato , com seus vestidos de gala
Roupas caipiras da quadrilha, fantasias do ballet.
A máquina de costura varando as noites naquela cadência
As roupas escolhidas e por elas exigidas
Prontas , bem costuradas, acabamentos perfeitos
Nos  rostinhos , um relume  de alegria
A vida...que doce magia!

Partiram...as meninas do retrato
Hoje são apenas um substantivo abstrato.
Não posso toca-las, mal posso ama-las,
São figuras , são lembranças, são um vazio de esperança.
Fui mãe , hoje sou um caso a ser comentado
Uma história para ser contada.

Cresceram...se foram...
Uma delas é muito ocupada.
Fez mestrado, fez doutorado
E  sempre muito inteligente
Prepara a livre docência
Para isso não lhe falta a  competência!

"-Mãe, depois do título conquistado
Daqui nove ou dez meses
Um ano ou mais , talvez
Vou visita-la , mais uma vez!"

Eu fico orgulhosa e tão contente!

A outra com vida corrida
Filhos , trabalho, marido,
ginástica, dança, mil compromissos, me diz:
-Mãe , vou ficar afastada
Você está contrariada, fica doente , amuada
Já não me ajuda em nada!
Tenho a cumprir , uma grande e nobre missão
Você não entende e não estende a sua mão
E me deixa cansada e magoada!

Eu fico desapontada , faço uma penitência!

Paciência,  já nem sinto a solidão
Vivo agora, com o que tenho à mão
Um companheiro manso de coração
Um jardim que exige o trabalho das mãos
O fogão com comida quentinha
Pincéis , agulhas e linhas...
Os retratos tratados com todo cuidado
-Uma rica abstração!




Acendo a luz do meu quarto
Olho os antigos retratos
São lindos, mas apenas...
um substantivo abstrato!

         

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

SE É ASSIM...EU TRABALHO E FAÇO

SE É  ASSIM...EU TRABALHO E FAÇO!
                                              Vera Popoff

Se a vida está deveras triste
           e sem graça!
Se a tarde é morna e simplesmente,
                passa.
E se o meu poema é pobre e feio
        como a desgraça,
Se tem que ser assim, eu disfarço
        e algum trabalho eu  faço!

Ou finjo que trabalho
Sujo as mãos de terra e semeio
Talvez nem viva o tempo da colheita
Mas insisto e mexo , e lido, e teço.
Já que tem que ser assim
Não vou clamar e clamar:- Ai de mim!
    Arregaço a manga do braço
          e trabalho e  faço!

Incomodo quem está por perto.
-Sossega , mulher, sossega!
Não vês que estás fraca,   incompetente
    e da vida , quase ausente?
 Insisto! Afinal,  ensinaram-me só isso:
-Os bons trabalham e permanecem pobres!
Acreditei e minha vida virou um grande enguiço.

O pior que nada aprendi  e falo demais
Sem ouvintes , falo comigo mesma
   e ainda me respondo
Quem me fará calar , se vivo tão sozinha?
Quem irá  me contradizer , se a única voz é a minha?

Se tem que ser assim...que seja
Meu velho coração nada mais almeja
Além d'um café forte
        e o velho sonho
     de partir para o norte.
Enquanto o horizonte , minha lida assiste
Eu suo a testa com jeito de quem não desiste.
Meu amado  pai ,  conhecido boticário,
Trabalhou curando dores e esse,  foi o seu fadário!

Se a vida está deveras triste
     e  sem graça
Se a noite é fria e simplesmente, passa
Se o meu poema continua pobre e feio
         como a desgraça
Se tem que ser assim , eu madrugo, disfarço
             e algum trabalho...faço.


ENQUANTO FUI MÃE

"Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra." (Coelho Neto)



ENQUANTO FUI  MÃE
                                         Vera Popoff

Fui mãe , enquanto gerei o filho
no meu ventre! Fui mãe ao sentir a dor
para fazer a vida tua!
Fui mãe ao te dar a pura seiva do meu seio.
Fui mãe ao aconchegar-te nos meus braços
E desejar que a febre tua , fosse minha.

Fui mãe ao acalentar no berço, o anjo!
Fui mãe ao sorrir do teu sorriso
 e quando o  mundo brilhou nos olhos teus.
Fui mãe ao ensinar-te o pouco que eu sabia
Fui mãe ao pernoitar ao lado teu,
tentando desvendar aquele amor!

Fui mãe quando o amparei
nas tuas quedas e mãe , e mãe..
quando nem quis saber da minha vida
A tua vida , então , era tudo que importava!
Fui mãe quando entreguei-te
o melhor de mim. E quando ficava mais bonita
                  para ti!

Fui mãe , segurando a tua mão,
protegendo-o dos teus tolos medos
E quando destruí tantos perigos
para deixa-lo a salvo!
Fui mãe ao levá-lo para escola
E chorar , já...de saudade!

Mas meu filho, tu cresceste!!
E passou a resolver a tua própria vida
                sem me consultar.
Já não pedia que eu fizesse um bolo
Já não sentia frio para eu te agasalhar.
Já não dormia junto a mim
E ao despertar , teu quarto...um vazio!

Enquanto fui tua mãe ,  fui tão feliz!
Agora, quase não te vejo
E nos encontramos , brevemente,
assim que te sobra um tempo!
Estou velha. Já não tenho vigor
para te fortalecer. Ranzinza ,
já não tenho a solução para os teus
             problemas.

Enquanto fui a tua mãe
Ai , como te amei !
Agora, sem serventia,
ai...como inda te amo!
Longe dos meus olhos , mas dentro
da minha alma estás e permanecerás!
Eu nem me importo se ainda sou a tua mãe,
                   ou não,
Tu... sempre serás  o meu filho!

sábado, 22 de outubro de 2016

PENALIZADA

PENALIZADA
                             Vera Popoff
É longa a minha história...
Nem sei porque  relembro e relembro e
             relembro...
Nela, na  minha história , não há heroísmo,
Sim , algum idealismo perdido
O imenso amor seduzido acabou.
Ao esquecimento foi  conduzido.
Sobraram quimeras, quase quireras,
           farelos ao chão!
Eita , história danada,
Insistiu em dizer Não!

Tenho os olhos com cataratas e
      cansados de chorar!
 Agora  secaram, enfim!
O coração, um dia humilde e  generoso
virou um seco e infértil sertão.
Já nem sinto pena de mim, nem de ti,
       nem de mais alguém!
Dane-se o mundo! Já dizia o poeta:
-"Não me chamo Raimundo!"

Foi tanta canseira me cansando
E tanta ilusão murchando
E tanta esperança devastada
E tanta mágoa acumulada
E tanta decepção, a alma, amargurando!

A história poderia ter sido mais bonita
Pobre história!! Perdeu-se nos labirintos
           do tempo.
Escolhas mal escolhidas
Decisões equivocadas
Amores jogados fora
Paixões racionais ...essa é boa!
Nem soube me apaixonar , sem pensar.

As coisas que decidi dizer
falei com voz fraca,
apenas balbuciei e o mundo
      não me escutou.
Não soube me defender das dores
Permiti que pisassem meus sonhos
Deixei que impusessem vontades
que nunca foram as minhas!

E fiquei cruel!
Sim,  cruel!
Enxergo com visão dura
Acabou-se a minha candura
Morreu a menina mulher de alma pura.
Já não me importo com nada!
Vago , agora...

Vago pelo espaço solitário
Foi o que me sobrou.
Não olho mais outros olhos
Não escuto o que não quero
Não agrado quem não merece
Fui tão penalizada que acabei assim,
              desalmada!

Não, não faço o menor esforço
para compreender  o fulano.
Não compartilho  problemas que não formulei
Nem demonstro teoremas que não inventei
Já fui penalizada demais
por culpas e erros que me imputei
Peguem os teus  equívocos e caiam fora!
Não sou doutora , apenas uma humilde professora,
sem a pretensão de ser  a palmatória do mundo
E como disse, sabiamente , o poeta:
"-Dane-se o mundo, dane-se o mundo,
 eu não me chamo Raimundo!" (Drummond)






CÃES, NÃO!

                             

Pasmem, se for o caso. Jamais apreciei cães ou gatos. Bichos perto de mim, roçando minha pele, são castigo para o meu coração.
Mas , por força das circunstâncias, fui obrigada, quase condenada a conviver com eles  a maior parte de minha vida. Certa vez , tive que cuidá-los e limpá-los  por um grande período.  Se é verdade que pagamos pecados na Terra, paguei grande parte dos meus!

CÃES , NÃO!
                               Vera Popoff

Já que todos se foram
Coube a mim, cuidar dos cães da família.
São vinte ou trinta
Não me atrevo a conta-los!
O que sei é que recolho, diariamente,
           quilos de bosta!
Meus sapatos ficam atolados na bosta
Minhas vestes, respingadas de bosta.
Meus sonhos , maculados pela bosta.

Minha vida está uma verdadeira bosta!
Meus planos e projetos lambuzados de bosta
Os cães ladram
Meus ouvidos doem
Minhas narinas impregnam-se do cheiro
                da bosta!
Minha boca tem o gosto da bosta
A garganta irritada de tanto engolir
       esta bosta de sina canina!

Mergulhei a alma na bosta
Chafurdei, esperneei e lutei
Mas não consegui me livrar de tanta bosta!
Dos meus olhos caem lágrimas tingidas
             de bosta.
Tantas leituras e estudo da filosofia,
a política, a sociologia, a ideologia...
E acabo com a minha vida
afundada na bosta!!

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

FINJO

FINJO
                 Vera Popoff
 Finjo!
Aprendi a fingir, como ninguém
Finjo para ele...
digo que lhe tenho desejo
Finjo para a noite
De pálpebras cerradas
    finjo sono.
Finjo para o dia
digo que não sinto preguiça
finjo  que trabalho, mas
caio na poltrona, espreguiçada!
E sigo, fingindo
É só o que sei fazer...fingir
Se estou aborrecida
Finjo contentamento!
Raivosa, finjo o perdão!
Disfarço bem , toda a indignação.
Finjo suportar o insuportável
E finjo compreensão
mesmo quando nada compreendo
Finjo aceitar o  inaceitável.
Finjo ser maleável
mesmo dura como uma pedra.
Finjo comemorar uma data
De verdade, datas pouco me importam!
O pior está por vir, pois
eu finjo ter fé, quando
sei o quão sou descrente.
E finjo que está tudo bem
Finjo que , mesmo cansada
   posso ir além!
Finjo que não sou magoada,
que não estou enjoada
e que vivo conformada.
Ah...finjo que  não doeu
e que o desprezo nem me feriu
Finjo que o golpe não me esmoreceu
e que a vida foi leve, que o mundo é tão bom!
Finjo que sinto a paz
quando sou inteira...guerra!
Finjo que sou boazinha
Mulher recatada,
alma bem comportada,
mas ... não posso ser desvendada!
Finjo que não me importei,
que apesar de tudo, eu amei!
E finjo ser um poço de alegria
quando na verdade, tudo é só fantasia
Finjo, finjo e pronto!
Por que o espanto?