terça-feira, 8 de novembro de 2016

MÊS DE NOVEMBRO

MÊS DE NOVEMBRO
                                              Vera Popoff

Neste mês de novembro
morri mais um pouco.
Meu peito ficou oco,
sem o coração latente.
Sonhei ...minha cabeça encostada
num corpo tão amado, um dia.
Fui afastada e desprezada.
Era só um sonho e doeu tanto!
Ah, imagem combalida e desiludida!
Dez , vinte, trinta, quarenta, cinquenta anos
e a doença não sara e a saudade não para ,
         e a lembrança não se apaga.
O fogo já nem arde , os sinais vitais daquele amor
             são tão pequenos e inda sensíveis.
Envelheci inconformada e não me habituei
     sem a vigília do teu olhar amoroso
     sem  o  enrosco do teu braço
     sem o teu beijo indecoroso.

Então escrevo o que jamais lerás
E conto pra mim mesma o que jamais escutarás
E poeto a mesma poesia que foi feita para ti,
                   e nunca saberás.
      

BECO SEM SAÍDA

BECO  SEM  SAÍDA
                                       Vera Popoff

Minha vida é um beco sem saída
A rua onde moro é um beco sem saída
Meus planos mirabolantes viraram um beco sem saída
Minhas tantas andanças levaram-me a um beco sem saída
Minhas esperanças acabaram num beco sem saída
Dum lado para o outro, batendo cabeça,   cheguei  num
                            beco sem saída.
A sentença da minha frágil vivência foi o beco sem saída
Minha resistência , já sem o vigor da adolescência,
       está num beco sem saída.
Minha paixão pelo homem de olhos de sedução
caiu apagada, num beco sem saída.
As bandeiras que agitei, que carreguei , que defendi
      destroçaram-se...num beco sem saída
A arte que produzi foi tão ruim que ficou esquecida
               num beco sem saída
Minha poesia procurou a rima, buscou a harmonia,
vislumbrou o brilho da fantasia  e tímida, desistiu
      e permitiu definhar-se num beco sem saída.
Os projetos pesaram nos ombros, caíram por terra
           num beco sem saída.
O idealismo desfigurou-se, decepcionou-se e foi parar
            num beco sem saída
A ternura que guardava no peito, endureceu-se e
       como pedra parou ...num beco sem saída
O passado , ora esquecido , ora rememorado, apagou-se
              e  virou cinzas num beco sem saída.
Minha fé em Deus, em mim, na humanidade, desmoronou-se
             num beco sem saída.
Meus dias , tardes, noites, apenas transcorrem devagar...
            irão chegar a um beco sem saída
Não ultrapassei fronteiras , nem cruzei céus ou mares
     estacionei num beco sem saída.
No beco sem saída consegui me perder

Faço um esforço, mas não consigo!
Continuo num beco sem saída.

domingo, 6 de novembro de 2016

MAIS OU MENOS

MAIS OU MENOS
                            Vera Popoff

Os domingos são todos iguais.
As segundas e terças e quartas-feiras,
As quintas e sextas-feiras
E enfim... o sábado!
Tudo sempre igual.
Nem o cardápio é variado
O arroz , o feijão , a  carne ...
ás vezes sim , ou não!
O tempo é de carestia
Com os desejos e extravagâncias
Fiz uma prudente anistia.

O lugar onde vivo é ermo
O vento é preguiçoso
O sol  sempre majestoso,
A lua , meio languente,
dá as caras , alta ,branca
Outras noites, desanimada, esconde-se!
Deus parece amuado
Seus filhos , ou são desprezados,
ou são malcriados, ou são manipulados.
Outros são oprimidos
Nas mãos pesadas  dos opressores ,
que  da injustiça e desigualdade
são ferrenhos defensores.

A parte da vida que guardava meus sonhos
    eu perdi n'algum lugar e momento
As recordações ainda aciono
 quando interessa, quando estou sem pressa.
Já não reconheço quando estou alegre
              ou triste.
E não me importo com gratidões
         ou ingratidões.

Tudo está sempre igual
Nem preciso bulir no calendário
De janeiro até dezembro
é sempre o mesmo fadário!
Os dias  nem carecem ser trocados
A indiferença nem é brisa , nem é um tornado.

Numa manhã avistei três bem-te-vis
O bem-te-vi pai , a mãe e o filhotinho
Ao perceber tanto carinho
Lembrei do quão doce também já foi
             o meu ninho.
Por um momento fiquei emocionada
Voltei em tempo à razão
Ando só... pelos meus curtos caminhos
As ausências , de tão constantes,
viraram uma rotina nada retumbante.

Decidi manter tudo sempre igual
Sem abraço , sem beijo e sem desejo
Rego as minhas plantas  ,lavo a minha roupa,
varro o chão onde piso , continuo sem  juízo,
sinto pouco sono , não como comida fria,
já não tenho fé , não faço promessa, pois
         sei que não cumprirei.
De agora em diante, pouco almejarei.
Leio Machado de Assis e guardo na memória
trechos lindos de cada história.
Ouço Bach, Beethoven, Mozart, Chopin
Ou Chopin, Mozart, Beethoven, Bach
A ordem não importa, já que são sempre os mesmos.
Escrevo e declamo uma elegia
Paro sob a árvore , a mais fiel companhia
Digo que a vida não é mais e nem menos
É , simplesmente , mais ou menos.



quinta-feira, 3 de novembro de 2016

FIM

FIM
                    Vera Popoff

No banco da praça pequena
Meu braço num laço apertado
Minha boca em outra boca
O coração dando pulos de paixão.
Seria um tempo para a eternidade?
Um corpo colado no meu
Suores se misturando
Respirações se confundindo
Desejos compartilhados
E mil beijos ardentes trocados.
Rosto mais bonito e mais amado
Ah...não existia
Olhar tão penetrante e sedutor
Mãos mais atrevidas e a paixão
       na florescência.
Despreocupação com a decência ou indecência
A vida sem nenhuma dor da carência.
Mas o filme terminou
O doce e eterno amor...acabou.
Na tela antiga da vida: FIM!

NO MOMENTO

NO MOMENTO
                            Vera Popoff

No momento , o café da caneca esfriou
E o vento cessou. E o tempo parou...ali.
Não , eu já não estou e nem sou
Perdi minhas referências
Já não sou filha e já não sou mãe
Já não sou namorada e nem companheira
E tampouco sou irmã, já que meu único irmão
                 já partiu
E estou pisando um mundo que ruiu
E respirando um ar que não devolve
                uma vida esquecida.
Já nem sinto saudade. Tudo passou
A saudade ou  qualquer coisa que já foi
         a minha verdade.
Faço um esforço imenso
pra esquecer a lembrança
e feneceu a vontade de esperança
Fico parada. O café gelou na caneca
Sem aroma , sem sabor.
Já bebi outros cafés bem mais saborosos
Quando um gole fazia todo sentido do mundo
Quando não havia constrangimento
ao falar com quem me deixou
Ao mendigar um regresso
Ao pedir um auxílio miúdo
Ao contar o que guardo no coração.
Já nem sei fazer uma oração
Não ligo para meus tantos pecados
Nem enxergo alguém ao meu lado.
Serão elegias , apenas?
Ou a vontade de um canto sofrido
Ou a alma silenciando...
À espera de um copo d'água
que me desperte, me chame à razão.
Um passo adiante, talvez
Esquecer quem fui ou serei
Ditar um verso e agradar
o meu coração que já não é coração de filha
Já não é coração de mãe
Um coração sem amigo ou irmão.
No momento, o sono não chega
A noite é comprida e tão lenta!
Na escuridão da janela
Uma dor se descortina .

MAL ACOMPANHADA

MAL ACOMPANHADA
                                           Vera Popoff

Tantos anos se passaram!
Tantos anos  amargurados,
desapontados , frustrados,
tristonhos e alguns, até bisonhos.
Tanta vida dividida , inibida ,
distraída e um tanto mal vivida!
Tantos sonhos pisados e esmagados,
feito fruta passada e estragada
           atirada ao chão.

"Antes só do que mal acompanhada"
Minha avó repetia porque sabia
Sem condição de boa conversação
Sem a alegria da afinidade
Sem um sorriso solto
Sem compartilhar nenhuma mentira ou verdade
A vida é tão insustentável!
A tristeza chega a ser insuportável!

Escondida pelos cantos
Fingindo viver sozinha
Conversando com botões
Mirando a cara no espelho
Amuada com a desgastada imagem
Aborrecida com a falta de coragem
Abaixando , a cada dia, o volume da voz
Indignada pela incapacidade de desatar tantos nós
Assistindo o tempo passar
sem dó, sem piedade, sem nenhuma misericórdia
Já não conto os dias que se foram, pois
foram irritantemente iguais,
Com sentimentos rasos , frios,
vazios, indiferentes e banais.

Para assegurar a vida do outro
Tornei minha vida insegura 
 e  inserida num vazio
Meu coração está tão solitário
Parece um terreno baldio.
 


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

METAMORFOSE

METAMORFOSE
                                    Vera Popoff

Estou perdida em mim mesma
Bem que eu queria encontrar-me,
vasculhar dentro de mim,
Espanar a poeira que me esconde
Derrubar as paredes que me prendem
Abrir as janelas que me guardam
tão bem guardada...que já não me encontro.

Ah, como eu queria espalhar-me
por espaços nunca ocupados,
percorrer atalhos nunca explorados,
pisar sobre as bombas enriquecidas
de todos os bloqueios ,
 num campo cruelmente minado.

Eu queria envolver-me numa aura
           de liberdade
Esquecer antigas e tristes histórias
Arrancar as limitações da memória
Nascer outra vez. Diferente, mais presente,
               mais contente .
 Expelir  tudo que sufoquei...
libertar e sentir  as emoções
        ardentemente!

Eu queria viver uma metamorfose
Ao invés de uma alma lagarta
Virar alma borboleta e voar...voar...voar...