sábado, 26 de agosto de 2017

O QUE SERÁ DA VIDA

O QUE SERÁ A VIDA??

                        Vera Popoff
O que será a vida?
Além d'um sonho esquecido,...
Do coração todo repartido
E das ilusões atiradas ao chão e pisadas?

O que será a vida?
Além do teu olhar indiferente,
Do abraço mal abraçado, tão frouxo?
Da boca humilhada , esmolando
um último beijo,
E a sufocação do mais ardente desejo?
O que será a vida?
Além do lenço da partida, ao vento,
balançando?
E do caminho esburacado
Do solo já esturricado
E do pensamento livre, agora travado?
O que será a vida?
Além da mão calejada
Da beleza consumida
Da cachaça barata, engolida
Da garganta, pelos prantos, esfolada,
Da raiva disfarçada , da indiferença degustada,
Da alma desprezada, brincando que é amada?
O que será a vida?
Além dos filhos paridos, criados, sumidos?
Das desilusões entre mulheres e maridos?
Da cama fria ... arrumada pelo desamor
Da blusa bem abotoada
E do seio não mais tocado e afagado?
O que será a vida?
Além de uma semana de agonia
e poucos minutos de alegria?
Das raras e distantes belezas
Das poucas levezas e finezas,
nenhuma moleza e o enfrentamento das baixezas
Das avalanches de safadezas e torpezas?
O que será a vida?
Além das rasas batalhas vencidas,
Mas...da guerra perdida????
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sábado, 1 de julho de 2017

MAIS OU MENOS II

MAIS OU MENOS II
                                                         Vera Popoff

Não estou bem
Não estou mal
Nem contente
Nem descontente
Nem mais e nem menos.
Estou mais ou menos.
O dia não se apresenta colorido
A fotografia não é branco e preto
As fotos em branco e preto são as minhas
             preferidas.
Porque imagino as cor dos olhos e da pele
A tonalidade da roupa e o verde da paisagem
De que cor é a rosa?
Qual a cor da cortina?
Demorei a perceber que as  cortinas
podem ser de fumaça.
Entristeci-me com tantas cortinas descerradas...
                  de fumaça .
A estação é a do inverno e sinto tanto frio!
Um estranho frio jamais sentido
Frio nas costelas e na alma
Frio nos pés e no coração
Frio nas mãos e até nos abraços mal abraçados.
Não sei o que nos espera, mas parece-me:
-coisas boas não são!
A energia é estranha
O ar , carregado
Os sonhos parecem tão esfarelados!
A esperança, amarelada.
Os dias , curtos demais , não realizam desejos
Ou são compridos demais para serem suportados.
As notícias são chocantes, traiçoeiras
Os ventos , entristecidos , choram na velha janela,
Acho que vou andar no jardim
Quem sabe, algum aroma
Um sabiá , com seu canto,
trazendo graça e ventura
Não nasci para ser ...
mais ou menos!
ABUSADA
              Vera Popoff

Estou pensando,
cá com meus botões...
Como tenho sido abusada !
Abusaram da minha paciência
Abusaram da minha coerência
Abusaram ...quando acreditei na decência.
Ah...estou machucada
Fui abusada com violência!
Não sei se mando benzer o meu pedaço
Ou se peço ao padre que celebre uma missa
Ou se tomo passes espirituais
Ou se , de fato , enganei-me e
não percebi que "eles todos" são
exatamente iguais...na desfaçatez,
na insensatez, e na ausência da honradez.
Sábado! Sonhei com um sábado suave,
       simples e leve.
Mas após uma sexta-feira de muitos abusos...
Acordei de um pesadelo?
Ou é mesmo sinistra a meia verdade descrita?
Tanto escárnio "elogiável"!
Será que vivo um momento de embriaguez?
Ou , de fato,  está exposta à nudez,
toda a  hipocrisia e o cinismo
 dos homens , ditos, do bem?
E que , sinceramente, querem mesmo
                mais um vintém !
Justificam "fortes elos" ,
 descem todos os degraus,
expondo sorrisos amarelos  e
 afundam-se na indignidade
Já nem disfarçam que são
tão míseros e indecentes!
Ah, minha Pátria!
-Por onde anda a sua gente?
-Por onde anda a sua gente?
-Por onde anda a sua gente?




terça-feira, 6 de junho de 2017

EMBARQUE

EMBARQUE
                       Vera Popoff
Embarquei nas ondas do silêncio.
Não sei se foi apenas mais um,
ou o derradeiro embarque.
Nada está pressentido
e nada está consumado.
A viagem , nas ondas do silêncio,
absurda  e muda , flui...
O inverno, pelo jeito, será longo.
Sob ventos , viajo e penso,
adormeço e sonho,  envolvida na neblina.
Lá , onde estava ancorada, era  feio demais!
Tolerar, relevar, editar, respeitar,  aconchegar
              e abraçar
Eram apenas verbos, da primeira conjugação.
Abraçada e apertada pela indignação,
desgarrei-me e parti.
Se foi covardia ou rebeldia?
Ainda não decifrei.
Se foi cansaço ou dor em demasia?
Também não atinei.
Sentada na poltrona da reflexão,
já não sou combativa , nem receptiva .
Esqueci   o  dias mais perfeitos e os mais imperfeitos
Desperdicei minha raiva e minha fúria
Arranquei as pedras atiradas contra o meu coração,
Matei a sede da vingança
Suavizei a minha audição
ouvindo Chopin.
Por enquanto , o prazer , em mim,
é lambuzar-me da fruta
e abrigar-me das intempéries
  logo ali...naquela gruta.

DONS

DONS

            Vera Popoff

Alguns dons, poucos dons,
singelos dons, nenhum raro dom.
Temperar um bom feijão,
Bordar e cozer à  mão,
limpar o chão onde piso e donde,
algum passo de bolero,  ainda deslizo.
Semear um pobre solo  e colher
o que é possível.
Relembrar velhas lembranças, impassível!
Desprovida do dom da paciência ,
afastei-me dele...sem chorar.
E despedi-me  d'alguns amigos , sem reclamar.
O dom de enxergar, conservei,
por causa de certas visões , padeço e me aborreço.
Deram-me, como enriquecimento,
o dom da indignação e assim,
vivo momentos de extrema sofreguidão.
Ah... por vezes até esqueço do dom de partilhar
                    companhias
Fugida de todo alvoroço
Cansada de muita conversa jogada fora,
Exaurida da hipocrisia , de um mundo tosco,
                    sem fantasia,
carrego nos ombros , a sós,  os meus dias.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

CÉSAR BRANDÃO

CÉSAR BRANDÃO

                                                     Vera Popoff

Pede-me desculpa por intrometer-se na poesia?
Eu digo-lhe :-Grata, muito grata pelo seu tempo dedicado,
pelo trabalho empenhado e pela delicadeza registrada no seu comentário.
Fala de saudade ...sentimos a saudade dos amados
E ela , a danada, alimenta nossas almas de lembranças,
enriquece os corações de ternura, alimenta os momentos
                     de solidão.
César Brandão...é tão antigo dizer que colhemos o que semeamos
Tento semear um pouquinho de poesia ,a mais simples e despretensiosa, a poesia do cotidiano, da observação, escrita
na solidão de um lugar que escolhi para viver.
Lugar entre árvores e pássaros , flores e colibris,
com sabiás cantadores e juritis que lamentam.
Semeio minhas tão simples palavras  e colho amigos que as recolhem, decifram  e fazem-me tanto bem. Muito obrigada.

Ah...antes que me esqueça. Caminhamos do mesmo lado...
           Á esquerda, buscando as mais lindas utopias!
           A nossa hora está se aproximando.
           Aglutinemos as nossas energias, pois ele, LULA,
                       conta conosco.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

ERA  MENTIRA
                     Vera Popoff
Era mentira.
Era mentira aquele povo cordial, simples e misericordioso.
Era mentira aquela solidariedade, os vínculos fraternos.
Era mentira o sorriso franco e o coração aberto.
Era mentira o espírito cristão, a caridade, a ternura.
Era mentira a visão e a alma abrangentes, grandes, tão iluminadas!
Era mentira "o sol da liberdade em raios fúlgidos e as margens plácidas"
Era mentira "o sonho intenso, o raio vívido, de amor e de esperança descendo à Terra!"
"Mas se ergues da justiça a clava forte"...ou a clava  nas garras de justiceiros , omissos e coniventes com as barbáries?
Que tempos!  No peito, uma inquietação, uma desolação, uma grande desilusão!
Mas no mesmo tempo da dor, um vigor, uma enorme vontade de resistir, de falar com as pessoas, de ouvir ao mais sensíveis, os mais sábios, de ler artigos esclarecedores, de trocar olhares e sorrisos para amenizar o desassossego.
Não tenho ideia de como fazer, mas precisamos fazer virar verdade... o que era só uma mentira.