AMANHECEU ASSIM!
Vera Popoff
O LIVRO LIDO
Vera Popoff
Não dobre as pontas das páginas do livro!
Não rabisque o livro
Não coloque anotações ou comentários!
Ora, ora, ora...
Um livro é para ser lido e relido
Bulido, anotado e rabiscado...até.
Para que me serviria um livro?
Se não pudesse discutí-lo, entendê-lo,
desvendá-lo e travar embates com suas ideias?
Anotações de novos vocábulos e dúvidas
Das diferenças e ambiguidades,
Das viagens e voos,
das misérias desconhecidas,
da fúria dos intolerantes,
da mansidão das águas do rio,
do perfume da donzela,
se "sou ou não sou".
Do sapato de verniz e da criatura sem verniz,
dos opressores e o medo dos oprimidos
Da cachaça, e da ressaca
Das lágrimas, do desespero
Das paixões perdidas e da vontade dividida
da fome de comida e de afeto,
dos segredos mal guardados,
da dor da viúva e dos corações maternos,
dos espelhos quebrados e o mau agouro
e das perdas...
da matéria e do sobrenatural,
das mandingas e sortilégios,
do branco, do negro
do contato e do prazer,
dos meninos que brincam e dormem
e daqueles desorientados
das libertinagens e das imagens
da justiça
da injustiça
do conhecimento
da 'Lira dos vinte anos"
Capitu traiu, não traiu
Dos cem anos de solidão
Maria Madalena e Jesus
o trovão, o sol, o céu.
...da vida
...da morte.
ROSA PÚRPURA??
Vera Popoff
O botão da rosa vingou indeciso...
Não decidira se seria rosa, ou púrpura
Quisera fosse azul!
Não lhe permitiram
Entre a indecisão: se rosa ou púrpura,
chega o besouro faminto.
Belisca o botão , nem rosa , nem púrpura e
nem azul.
A tom foi destonado
A rosa mal aberta
O besouro satisfeito
A roseira decepcionada
O jardim sem tanto encanto
A manhã sem a fragrância
A alegria mais distante.
TEMPO, TEMPO , TEMPO...
Vera Popoff
Passa da meia noite...
Meia noite e tanto,
não sei exatamente porque não fixo no relógio.
Assusta-me o tempo que passo sem dormir
Sigo nesta vida com disciplina irritante e esmagadora!
Esmaga o bom humor, esmaga a leveza, esmaga, esmaga,
esmaga qualquer broto de ternura.
Cinco e trinta , o primeiro café.
Nenhum minuto antes ou depois.
Seis horas , a caminhada...
No mesmo espaço, as mesmas esquinas,
as mesmas caras desconsoladas e sonolentas.
Como a minha cara de tola. Disciplinada e tão certinha!
Uma vontade jorra d'alma:
- esconder-me do tempo, das horas...
Quem inventou a tolice de contar as horas?
-Não fui eu, mas a engrenagem da rotina
inventei e patentei.
A ÚLTIMA CARTA
Vera Popoff
Escrevo-te a última carta
Fora de moda , as cartas seladas, cheia de segredos,
desapareceram...
Quero te contar da minha vida
depois da tua cruel partida
Deixaste-me sem um beijo e...
tive que passar o tormento de relembrar
os tantos outros beijos antigos, molhados, demorados,
tão apaixonados!
Precisei agarrar-me ao penúltimo abraço
O último tu me negaste.
Foste sem um único olhar ...para trás
Se tivesses virado e me olhado
não terias partido.
Terias visto a mulher que abandonavas, ali.
Tão cheia de amor , carente e como árvore ,
pendendo frutos de desejo e de carinho
Disposta a ser a tua gueixa, a tua escrava,
aos teus pés!
Foste sem saber que o meu amor era louco,
único, perfeito, incondicional, disposto e perene
como um carvalho.
Depois da tua partida fiquei perdida
Perambulei por causas doidas, entreguei-me
às lutas , que até então , nunca foram as minhas.
Até ali, minha luta era prender-te, agarrar-me ao teu corpo
Beijar-te inteiro, dos pés aos teus cabelos.
Deixaste-me...perdida.
Agarrei-me aos sonhos de liberdade
Distanciei-me de outros homens
Tomei dianteiras perigosas,
enfrentei o risco de tortura e morte
Sabes por quê?
Já não queria ver outro sol nascer,
longe de ti.
E sentia repulsa pelo abandono e a ingratidão,
apesar dos amores nunca serem gratos
Mas eu vivi, meu amor!
Sem ti! Acreditas ? Vivi e fui bonita
Vivi e amei outra vez
Vivi e mudei, transformei algumas vidas...até!
Fui desejada por outros homens e amada
Conheci beijos mais lascivos que os teus beijos
E prazeres , até mundanos, mas tão quentes !
Fiz coisa que desconheces
Conheci territórios íntimos que desconhecia
Entrei dentro de mim e desbravei-me.
Hoje, assim como sou, não me quererias
Sou cheia de vontades e sabedorias
Amparei-me no estudo da filosofia
Aprendi que o amor só vale a pena
quando também é amado.
Vi a tua figura pelas vias sociais
Senti pena...
Sem mim ficaste tão plural e tão sem graça!
Teu olhar parece fosco e teus lábios, acho,
sem o sabor do vinho daquela taça.
Falas de coisas pequenas e erras as concordâncias
que estudávamos juntos.
Achei o tua retórica limitada e atrasada
Não discutes a ética, a desigualdade, viraste para a direita
Ah...eu pouco perdi, sem ti
Mas tu? pobre homem vazio!
Perdeste muito, ou quase tudo, sem mim.
Despeço-me e te desejo uma grande remorso!
Mereces todas as ingratidões do mundo
Longe dos meus olhos e da minha amorosa vigilância,
teus dias são insonsos e percebo-te amargurado,
desfigurado e a criatura que hoje, não desejaria
para mim.
Ficarias atônito se me visse , agora!
Emociono-me e sou capaz de enternecimentos ,
Às vezes , confesso-me descontente porque espero sempre
muito mais
Não apenas para mim, mas minha esperança é ampla
e abrangente.
Tive perdas bem maiores do que a sentida
quando te perdi,
Mas estou aqui! Se restou saudade,
distante , bem distante , tornou-se névoa.
Enfim, nos perdemos, mas reencontrei-me
Já, tu, homem fugaz...no teu castelo
é um ser perdido e empobrecido.
Toda a mágoa do mundo carregas nos teus fracos ombros.
Sem mais e atenciosamente...Eu!
REGRESSO
Vera Popoff
Regressei ao passado...
Cheia de esperança de reviver pedaços doces
da vida!
Não sei se foram muitos, se foram tantos , ou...
se foram quase nada e superestimados.
Só sei que o tempo passou depressa,
ora arrastado.
Lembro-me que o céu inda era azul,
que eu era distraída e não percebia o que doía.
Revi no pensamento as minhas tias
Uma engraçada, outra severa, tanta ternura
Mas na volta ao meu passado, elas morreram
outra vez!
E a minha mãe sorria , linda!!!
Meu pai contava casos e meu irmão sempre ao piano
Foi bom revê-los!
Mas no regresso ao passado, novamente senti a dor
da derradeira despedida.
Meu Deus Santo!! Quero esquecer todas as alegrias vividas
para não lembrar-me das tristezas revividas.
Sigo sob o céu...já não tão azul...
SÓ UM JOGO
Vera Popoff
Era apenas um jogo...
Uma distração, amendoim torrado,
poltrona confortável e a vontade de ganhar.
Um jogo... como a vida...um jogo
A bola rola e a esperança desliza na ponta dos pés
Esquecido todo o resto...tarefas e preocupações
A cada lance , a cada drible e o coração dá salto
-Pura emoção, mas...já não é só um jogo.
é tensão e virou dor.
O jogo acabou esvaziado de esperança
O que foi gostoso e doce, hoje, azedou.
Mexeu comigo, desnorteou o meu equilíbrio.
Enfim a conclusão tão racional:
- Bobagem, foi só um jogo!
Mas eu sofri, caramba!!!
Mas eu sofri, caramba!!!