terça-feira, 12 de setembro de 2017

CHEGA!

CHEGA!
                  Vera Popoff

Agora , chega!
Nasci, chorei,cresci.
Amei quem não amou o meu amor.
Escolhi caminhos tão penosos!
Iludi-me e desiludi-me
Apaixonei e me desesperei
Participei de todas as lutas
que passaram por mim
Plantei mil árvores e escrevi livros, mal escritos,
                         mas estão lá
                      preto no branco!
Pari , amamentei e chorei todas as dores,
              e sorri algumas alegrias,
mesmo nunca tendo sido, verdadeiramente,
inteiramente e inconsequentemente...   alegre.
E arrisquei-me mais do que podia
Andei muito além do desejado
Dancei passos mal marcados
Abdiquei dos sonhos mais lindamente sonhados
 Fui tola, ingênua, pequena e tão grande,
quando exigiram-me crescimento.
Mas agora, cansei.
Sento-me sob árvores que plantei
e sinto o cheiro bom do jasmim
Acaricio as pétalas das rosas escolhidas, no jardim
Aprecio a construção do ninho
 e emociono-me , apenas e tão somente
              com o passarinho.
Sair do meu quintal para ver o quê??
Convidada, não vou às festas
e não vivo para aparar mais arestas.
Chega de exposição e tanta decepção
Chega de querer convencer ,
de esmurrar o mal querer
de lembrar o que desejo esquecer.
O mundo, fora daqui ,
está sujo e cruel
As palavras são fel
E eu gosto mesmo é de lamber a própria mão,
lambuzada de mel.
Dane-se! Cansei!



          

Amanheceu assim

AMANHECEU ASSSIM!
                                               Vera Popoff

Amanheceu assim!
Amanhece assim ...só
que às vezes não enxergo.
Ou enxergo e nem ligo
Ou estou triste e ignoro
Ou atrapalho-me com o mundo tão estranho
Ou acho de pouca importância , um amanhecer.
Ou perco-me em meio a tanta bobagem
Ou enrolo-me em  pensamentos confusos
Ou penso ser mais do que realmente sou
Ou deixo passar desapercebido
tão extraordinário amanhecer!
Caminho dentro da manhã bonita
Faço parte do cenário...ali,
com os passos contados e bem marcados,
como numa marcha cívica.
Passa um ou outro, por mim.
Sorrio aquele sorriso mecânico,
abano a cabeça num cumprimento e
 sigo como máquina bem ajustada.
O amanhecer único vira tão secundário!
Quando me apercebo da crueza dos meus gestos
É tarde!
São passadas horas e a vida acordou muito atrasada
Sem tempo...para perceber aquele amanhecer.




AMANHECEU ASSIM

 
 
AMANHECEU  ASSIM!
                                                 Vera Popoff
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
    

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O LIVRO LIDO

O LIVRO LIDO
                                  Vera Popoff

Não dobre as pontas das páginas do livro!
Não rabisque o livro
Não coloque anotações ou comentários!
Ora, ora, ora...
Um livro é para ser lido e relido
Bulido, anotado e rabiscado...até.
Para que me serviria um livro?
Se não pudesse discutí-lo,  entendê-lo,
desvendá-lo e travar embates com suas ideias?
Anotações de novos vocábulos e dúvidas
Das diferenças e ambiguidades,
Das viagens e voos,
das misérias desconhecidas,
da fúria dos intolerantes,
da mansidão das águas do rio,
do perfume da donzela,
se "sou ou não sou".
Do sapato de verniz e da criatura sem verniz,
dos opressores e o medo dos oprimidos
Da cachaça, e da ressaca
Das lágrimas, do desespero
Das paixões perdidas e da vontade dividida
da fome de comida e de afeto,
dos segredos mal guardados,
da dor da viúva e dos corações maternos,
dos espelhos quebrados e o mau agouro
e das perdas...
da matéria e do sobrenatural,
das mandingas e sortilégios,
do branco, do negro
do contato e do prazer,
dos meninos que brincam e dormem
e daqueles desorientados
das libertinagens e das imagens
da justiça
da injustiça
do conhecimento
da 'Lira dos vinte anos"
Capitu traiu, não traiu
Dos cem anos de solidão
Maria Madalena e Jesus
o trovão, o sol, o céu.


...da vida
...da morte.

ROSA PÚRPURA???

ROSA PÚRPURA??
                                     Vera Popoff

O botão da rosa vingou indeciso...
Não decidira se seria rosa, ou púrpura
Quisera fosse azul!
Não lhe  permitiram
Entre a indecisão: se rosa ou  púrpura,
       chega o besouro faminto.
Belisca  o botão , nem rosa , nem púrpura e
                nem azul.
A tom foi destonado
A rosa mal aberta
O besouro satisfeito
A roseira decepcionada
O jardim sem tanto encanto
A manhã sem a fragrância
A alegria mais distante.

TEMPO, TEMPO, TEMPO

TEMPO,  TEMPO , TEMPO...
                                                       Vera Popoff

Passa da meia noite...
Meia noite e tanto,
não sei exatamente porque não fixo no relógio.
Assusta-me o tempo que passo sem dormir
Sigo nesta vida com disciplina irritante e esmagadora!
Esmaga o bom humor, esmaga a leveza, esmaga, esmaga,
esmaga qualquer broto de ternura.
Cinco e trinta , o primeiro café.
Nenhum minuto antes ou depois.
Seis horas , a caminhada...
No mesmo espaço, as mesmas esquinas,
as mesmas caras desconsoladas e sonolentas.
Como a minha cara de tola. Disciplinada e tão certinha!
Uma vontade jorra d'alma:
- esconder-me do tempo, das horas...
Quem inventou a tolice de contar as horas?
-Não fui eu, mas a engrenagem da rotina
                     inventei e patentei.

domingo, 27 de agosto de 2017

A ÚLTIMA CARTA

A ÚLTIMA CARTA
                                    Vera Popoff
Escrevo-te a última carta
Fora de moda , as cartas seladas, cheia de segredos,
                              desapareceram...
Quero te contar da minha vida
depois da tua cruel partida
Deixaste-me sem um beijo e...
tive que passar o tormento de relembrar
os tantos outros beijos antigos, molhados, demorados,
               tão apaixonados!
Precisei agarrar-me ao penúltimo abraço
O último tu me negaste.
Foste sem um único olhar ...para trás
Se tivesses virado e me olhado
não terias partido.
Terias visto a mulher que abandonavas, ali.
Tão cheia de amor , carente  e como  árvore ,
 pendendo frutos de desejo e  de carinho
Disposta  a ser a tua gueixa, a tua escrava,
                aos teus pés!
Foste sem saber que o meu amor era louco,
único, perfeito, incondicional, disposto e perene
              como um carvalho.
Depois da tua partida fiquei perdida
Perambulei por causas doidas, entreguei-me
às lutas , que até então , nunca foram as minhas.
Até ali, minha luta era prender-te, agarrar-me ao teu corpo
Beijar-te inteiro, dos pés aos teus cabelos.
Deixaste-me...perdida.
Agarrei-me aos sonhos de liberdade
Distanciei-me de outros homens
Tomei dianteiras perigosas,
enfrentei o risco de tortura e morte
Sabes por quê?
Já não queria ver outro sol nascer,
       longe de ti.
E sentia repulsa pelo abandono e a ingratidão,
apesar dos amores nunca serem gratos
Mas eu vivi, meu amor!
Sem ti! Acreditas ? Vivi e fui bonita
Vivi e amei outra vez
Vivi e mudei, transformei algumas vidas...até!
Fui desejada por outros homens e amada
Conheci beijos mais lascivos que os teus beijos
E prazeres , até mundanos, mas tão quentes !
Fiz coisa que desconheces
Conheci territórios íntimos que desconhecia
Entrei dentro de mim e desbravei-me.
Hoje, assim como sou, não me quererias
Sou cheia  de vontades e sabedorias
Amparei-me no estudo da filosofia
Aprendi que o amor  só vale a pena
quando também é amado.
Vi a tua figura pelas vias sociais
Senti pena...
Sem mim ficaste tão plural e tão sem graça!
Teu olhar parece fosco e teus lábios, acho,
           sem  o sabor do vinho daquela taça.
Falas de coisas pequenas e erras as concordâncias
             que estudávamos juntos.
Achei o tua retórica  limitada e atrasada
Não discutes a ética, a desigualdade, viraste para a direita
Ah...eu pouco perdi, sem ti
Mas tu? pobre homem vazio!
Perdeste muito, ou quase tudo, sem mim.
Despeço-me e te desejo uma grande remorso!
Mereces todas as ingratidões do mundo
Longe dos meus olhos e da minha amorosa vigilância,
teus dias são insonsos e percebo-te  amargurado,
desfigurado e a criatura que hoje, não desejaria
                  para mim.
Ficarias atônito se me visse , agora!
Emociono-me e sou capaz de enternecimentos ,
Às  vezes , confesso-me descontente porque espero sempre
                               muito  mais
Não apenas para mim, mas minha esperança é ampla
                               e abrangente.
Tive perdas bem maiores do que a sentida
           quando te perdi,
Mas estou aqui! Se restou saudade,
distante , bem distante , tornou-se névoa.
Enfim, nos perdemos, mas reencontrei-me
Já, tu, homem fugaz...no teu castelo
       é um ser perdido e empobrecido.
Toda a mágoa do mundo carregas nos teus fracos ombros.


Sem mais e atenciosamente...Eu!