VENCIDA Vera Popoff Prometi-me um dia bonito! Jurei abrandar os meus sofrimentos e apagar os tantos ressentimentos Superestimei minha competência e nem mesmo os versos prometidos extravasaram d'alma , agora , sem asas. Vencida, vagarosa ... escondi-me das minhas sagas.
NÃO SEI ! Vera Popoff
Tenho perdido o sono, perdido o apetite, perdido o riso e perdido até a esperança. ... Tenho perdido a leveza de poetar. Não sei escrever poesia sobre o sangue derramado e os assassinatos. Não sei cantarolar um poema sobre cadáveres, nem sei falar do perfume da rosa sobre o cheiro da pólvora. Não sei libertar o pensamento, deixá-lo viajar na brisa , enquanto as lágrimas rolam e as dores assolam, num mundo de perdas e horrores. Não sei abstrair e voar num verso , sabendo a terra contaminada do horror. Não sei encontrar rimas para a violência e para as almas malditas , que divertem-se ou justificam, com desdém, as tragédias anunciadas. Então ,no momento, eu só consigo doer. Ver mais
QUERO PARAR Vera Popoff A vida é movimento mas vivo sem envolvimento e quero parar. Toda manhã , a caminhada . Pareço tão enjoada, só desejo espreguiçar. A cama parece fria O pensamento é alheio A vontade não é mais o meu esteio Quero alguém para coar o café Sinto no coração a falta da fé. Peço desculpas ao sabiá que aguarda-me para exibir o seu cantar. O gato da rua que mia ao me ver passar hoje , não vai miar porque vou parar. Madrugar e andar Madrugar sem sonhar Madrugar e os passos, disciplinar Ah...este mesmo sol que nasce ou não nasce quer me ludibriar. O cumprimento do João foi embora cumprimentar outras almas n'algum lugar. A Gislaine , sem graça, vem no meu ombro lamentar e chorar Vou parar, Gislaine, enxuga a tua própria lágrima, quando quiser chorar. Eu decidi parar. Vou dormir até meio dia. Sem arroz , sem feijão, sem a massa do pão Querem comer o almoço acendam o fogão e vão cozinhar porque eu vou parar.
HOJE NÃO TEM POESIA VERA POPOFF Hoje não tem poesia Minh'alma está tão fria! De indignação , arrepia-se Por mais que eu lhe faça apelo ela curva-se ao peso do gelo. Hoje não tem poesia Estou cabisbaixa e triste Até diria , tristíssima, desolada O rio que navega em mim perdeu sua fluidez\ e reflui Como escrever poesia? Assisto ao funeral da Nação enlameada da baixeza e da vilania . Tentei escrever poesia Não encontrei a inspiração , a rima À alma falante e cantante faltou o calor, a paixão , o conforto , a esperança A emoção que eu sentia Não resistiu ao final do dia Portanto, sou cantador sem poesia. Hirta de indignação Sinto constrangimento Nem forças tenho para um lamento! As ruas salpicadas de suor e de sangue Impedem-me de sonhar Seria até uma heresia Voar com palavras ao vento e recitar a poesia. Hoje não tem poesia. Tento amenizar tão cruel momento com um invento, uma alquimia que inspire uma rima , um verso, uma ternura para a poesia. Mas molemente , desisto e covardemente, não insisto. A minha dor , a sua dor, a nossa dor Não podem ser esquecidas ! Hão de juntar-se , sem demora! Bom seria se fosse, agora! A pele descorada , a alma congelada, sem encanto, mal dormida precisa gemer , gritar , açoitar à exaustão, toda a resignação, trazendo o sangue, de volta, ao coração. O remédio é lutar contra o fato Gemer as dores d'um parto e parir novamente , o sonho Soltar o primeiro choro e desfraldar à luz, renovada vida. Pisar no indigno e bisonho Preencher o vazio do peito com brios e com galhardia Por certo , reencontrarei, a poesia. Quem sabe, depois da curva, a alma congelada e turva , reacenderá na encruzilhada o calor da fogueira acesa. Derreterá o gelo e fará rolar uma lágrima , uma água, uma chuva da bem aventurança Estamos pobres de amor e bonança
Hoje não tem poesia não encontro a boa rima para o almejado canto Guardei no armário , a alegria Passo horas inerte e amuada O grande mal é a nostalgia. Hoje não tem poesia. O papel ficou em branco Escrever , ah...eu queria A doença é uma grave melancolia Quanto mais eu insistia mais a força esmorecia e a ruína, sobre a minha Terra, caía! Hoje não tem poesia. mas" amanhã é outro dia."
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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
NOVE DEDOS E DEZ DEDOS Vera Popoff As mãos com nove dedos são capazes de arquitetar um mundo! Desenham a igualdade, entregam ao povo, a dignidade, colorem e incitam a fraternidade. Trazem sonhos, aos quem não sonhavam Protegem as cabeças, do cruel relento amenizam o ardente estio afastam das sofridas vidas , tanto desvario! Agigantam-se e abatem a miséria dura, trazem a luz, às noites tão escuras. O algoz , cujas mãos pequenas , exibem seus anéis nos dez dedinhos, inquieta-se com o brilho alheio Faz da vingança , o seu grande anseio. Tripudia e ao grande homem, vergonhosamente ele chama "o nine" Se ri , com riso abjeto, da decência , ele perde o "time" e afunda-se na insanidade. Sua justiça é o berço da mediocridade. As mãos com seus nove dedos abraçam a Nação inteira! São capazes de matar a fome , a sede e o frio Afagam as lágrimas em fio
Transpõem as águas de gigante rio! Fazem sorrir os seus semelhantes Têm sonhos tão bonitos e delirantes! O algoz não o perdoa!
Um homem com nove dedos
Corajoso e habilidoso
Vai direto para a masmorra
-que morra! Não morrerá, verdugo! A tua sentença é reles refugo! As mãos, com seus nove dedos Tatuaram n'alma, a sua liberdade. Percorre o mundo inteiro, a sua integridade! As mãos, com seus dez dedinhos Aprisionam -se , seguem amarradas às injustiças , às mentiras , às sentenças sob delação. Estão condenadas à escravidão do infame perdão. Serão o símbolo da baixeza e da traição. As mãos com seus nove dedos viram as asas de uma multidão Sobrevoam a leveza da consciência, da lucidez , da sabedoria e da paciência. Nelas , a esperança, inda carrega... São cotovias aproximando o céu azul, da nossa tão ferida Terra.