sexta-feira, 21 de outubro de 2016

EI, CORAÇÃO!

EI, CORAÇÃO!
                               Vera Popoff

Ofereço a poesia para minha amada amiga Camila.
-Camila, poucas vezes  nos encontramos , mas sempre, sempre nos quisemos tanto e nos identificamos e nos amamos. Somos a  carne e somos o  fogo e somos o sangue  e somos a água...

Ei, coração!
Como estás sofrido!
Tens  a aparência da terra arrasada
Mas a essência ...ah, a essência,
tão delicada, tão preservada, tão, tão
       leve e perfumada!

Ei, meu coração!
Ferido, consegue  sangrar amor.
Astuto, camufla a dor!
Choroso, finge e sorri ardiloso.
Em farrapos ,  tens a força 
para  cerzir tantos trapos!
Remendas  tuas veias tinhosas, às vezes manhosas,
Mas sempre vermelhas do mais púrpuro sangue!

Ei, coração!
Meu valente coração!
Infeliz daquele que faz pouco de ti
És o vigor de toda uma vida sofrida,
tantas vezes  renascida e nunca partida!
Tu nunca estás a sós!
Desatas todos os teus nós,
Pulsa , salta um carpado dobrado
e lança a tua energia nos flancos doloridos,
       mas inda tão ativos e tão vivos!

Ei, coração!
São ventos da leste, do oeste,
Tempestades de sustos
Tsunamis de medos guardados em segredo.
E quando o imaginam  desamparado, largado,
           abandonado...
Eis que salta no peito , todo alvoroçado,
       meu coração arretado!

Ei, coração!
Somos sangue pungente
Somos o fogo ardente
Somos a água corrente
Somos a paixão, a coragem,
a carne embriagada que inspira
       uma singela e sincera
            poesia.

Ei, coração,
no meu peito,
a rubra  poesia!

IMPERFEIÇÕES

IMPERFEIÇÕES
                                      Vera Popoff

Pela vida afora fui juntando
      tantas imperfeições!
Mais rasas ou mais profundas
Mais  graves ou mais agudas
Mais suportáveis, outras, não!
Fui carregando o peso de todas elas.
Fingindo que as corrigia,
Fazendo questão de exibi-las ,
Sofrendo por vê-las...tantas!
Sentindo culpas sem pedir perdão
Afinal, eis uma das muitas ferindo
               os ombros.

Minha vida...meio louca, mas decidida
Sem medo das inconsequências,
d'algumas demências, das inconstâncias
                e   da insensatez.
Sempre fui sim ou não! Nunca , talvez!
Carreguei meu mundo imperfeito,
Uma a uma , as imperfeições reconhecidas,
decifradas, como num teorema, demonstradas,
analisadas e muitas, exorcizadas!

Sempre à esquerda da vida
Á esquerda dos atalhos
Á esquerda , construí sonhos
À esquerda , tantos combates!
À esquerda fui mais inteira, mais bonita,
mais amável e mais aberta, mais resistente,
mais teimosa e muito, muito, muito mais contente!

E vamos à luta!
Imperfeitos , mas duros na queda!
Quem precisa da perfeição
com tanta disposição?

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

TRISTE

TRISTE
                    Vera Popoff

Eu estou tão triste, triste, triste
Muito triste, triste, triste...
           triste.

Sou toda pranto.
Pranto jorrado, pranto contido,
pranto expelido  e
pranto  pelos sonhos jogados fora e
           perdidos.
Prantos expostos , prantos escondidos
num lugar de mim que costumo chamar
           de alma.

Ilusões bonitas ficaram impalpáveis
Sorrisos escorregaram, caíram da boca
        foram pisados  e esmagados
E fiquei triste, triste, triste e muito
                triste.

Já não faço esforço para fingir alegria
Entrego-me à tristeza
As folhas das árvores percebem
    tanta e toda tristeza, mas
        nem me consolam.

Então eu escrevo
Repito a palavra ...triste!
Triste, triste, triste, triste.
Quem sabe, exorcizo a minha tristeza

Nem mesmo a Aparecida amiga, mãe,
protetora, acolhedora consegue limpar
          tanta tristeza.

Amanhece, cai a tarde, anoitece
e permaneço triste!
A palavra esperança é só uma palavra
que rima com lembrança, bonança,
liderança, destemperança, desesperança.

Espero o vento do norte, do sul,
Percorro alguns traços, olho o horizonte azul
Nada me faz desejar ou sonhar, ou me aventurar
Estanquei na tristeza e sinto-me a cada dia e hora
                      mais triste.

Triste, triste, triste...









segunda-feira, 10 de outubro de 2016

REBELDIA

REBELDIA
                        Vera Popoff

É justo .
Depois do  grande amor virar apenas
       um passado
Depois do lindo sonho virar um pesadelo
       desastrado
Depois da vida querida e desejada virar
       uma  sentença tão pesada
Depois da ilusão virar uma dor insuportável
Depois dos anéis perdidos e os dedos feridos
Depois do amigo virar uma pessoa indesejável
Depois das perdas , dos tantos danos e
      dos enormes desenganos
Depois do suor derramado e do rosto cansado
Depois da alma , outrora leve, virar
        uma carga pesada
Depois dos pés machucados pelas andanças
             erradas e malfadadas
Depois de tanto  " faz de conta"
E das contas desacertadas
Depois do mal resistir , vencer e galhofar
          sobre o bem
Depois do desejo jogado fora
e do peito não mais arder em chamas
e do passado virar apenas um grande engano
Só resta a rebeldia que permaneceu menina
É justo... a rebeldia tempera  e colore
           a triste sina.
     



CAMINHADA NA MADRUGADA

CAMINHADA NA MADRUGADA

                                                 Vera Popoff
Estou aposentada, mas
não estou destruída ou acabada.
Inda coloco o velho despertador às cinco horas e......
saio para caminhar
Caminhar na madrugada
permite-me uma baita liberdade.
É quando não encontro ninguém, além dos pássaros.
É quando rio do sol
que acorda depois de mim.
É quando brindo o silêncio
com o som dos meus passos.
É quando, de cara lavada,
enxergo dentro de mim.
É quando afago as minhas saudades,
Abro as minhas asas,
Consolo o meu coração,
que sente falta do único e
tão amado irmão... Fernando! Fernando!
-Em qual espaço andarás?
Caminhada na madrugada
desperta os finos sentidos,
A aurora aguça os meus ouvidos.
Caminhada na madrugada
instiga meus pensamentos.
Ideias brotam, crescem, engalham-se, frutificam
e ficam perenes.
Caminhada na madrugada
propicia o mágico encontro
com a mais gostosa solidão.
Caminho e requebro no rítmo
que eu quero.
É tão bom não ser observada!
É tão bom não ser contrariada!
É tão bom sentir-me, completamente, emancipada e libertada!


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

AMORAS

AMORAS



AMORAS
Vera Popoff
A tarde livre e solta
Sentada sob a amoreira...
Minha companhia?
Um livro. Não me lembro qual
Nem cheguei a abri-lo
Galhos carregados de penduricalhos pretinhos
Chão forrado de amoras
Na boca, o gosto de amoras
A língua prazerosa, roxa, docinha!
Um sabor da meninice
As mãos tingidas dos frutos
Alguns, esmagados entre os dedos.
Outros, tingindo também a alma descorada pela tristeza
O momento é insólito,
mais do que aborrecido,
tem sido quase insuportável!
Socorro o desalento,
embaixo do pé de amoras.
Não custa nada sonhar
Inda não nos arrancaram
a magia dos sonhos.
Como preciso d'um alento
D' alguem que diga:-
" Vai, adoça, adoça a vida!
Pinta a vida da cor das suas amoras! "
Eu finjo ouvir a notícia boa
trazida pelo vento
-Oh, vento, desalinha os meus cabelos,
Derrama mais amoras,
aqui...na minha tarde.
Enternece a dureza
Leva embora tanta rudeza
Só volte, trazendo a esperança!

Quem sabe, o gosto doce está perto, mais perto do que possamos imaginar..

 


 

sábado, 1 de outubro de 2016

NEM MISS, NEM MERETRIZ

NEM MISS, NEM MERETRIZ
                                Vera Popoff

Fui quase tudo na vida
Só não fui Miss e nem meretriz
Fui uma menina traquina
Adolescente assanhada
Moça donzela apaixonada
Esposa nem tão fiel
Mãe disciplinadora
Fui cozinheira, fui professora.

Fui quase tudo na vida
Sem muita beleza, nunca fui miss
Com alguma oportunidade,
estudei, encontrei trabalho
Só por isso...não fui meretriz!

Lavei roupa, fui costureira
Bordadeira de mão cheia
Não muito ajuizada, meio inconformada
Não gostei de tudo que fiz
Mas fiz tudo que gostei.

Fui quase tudo na vida
Com estatura pequena, não fui miss
Sem talento para o ofício
nunca fui meretriz!
Ah, quanto alfabetizei!
B com a fica ba
Tabuadas , adição, subtração
Dividi, mas não soube multiplicar
os bens adquiridos,
Fiquei com  os dedos
Perdi todos os anéis.

Fui quase tudo na vida
Até fui bonitinha
Mas nem tanto para ser Miss
Tive paixões e desejos
Mas nem tanto para ser meretriz.

Sempre muito corajosa,
até na hora do medo, 
 segurei alguma coragem
Mulher de muitos  segredos,
Simulei , interpretei ,
 mas fiz muita bobagem.

Busquei entradas e saídas
Ás vezes , algumas loucuras
Na boca , muita doçura
Vivi a vida sem frescura.

Plantei e jardinei
Semeei, colhi, produzi
Não sei se foi bom ou ruim
Vou sentar e avaliar
Se valeu ou não valeu. mas
   que doeu...doeu.