segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

DE QUEM ÉO SOL?

De quem é o sol?
                                Vera Popoff

De quem é o sol?
A energia da estrela maior
A luz e o brilho dourado
A chama luzente que nasce de novo
             na outra manhã?

De quem é o vento que canta e sussurra
         na cara, no ouvido, nos galhos?
Que leva embora a saudade e traz a generosa
                         lembrança?

De quem é a gota do orvalho?
Que pinga na rosa e enternece o jardim?
Que umedece a relva e refresca o jasmim?

De quem é a rua elegante, charmosa
onde desfilam as finas e bondosas senhoras
            tementes a Deus?

De quem é a cidade que desabriga e castiga?
De quem são os sonhos? De poucos? De alguns?

De quem são os edifícios de gala,
         as noites de festa?
Para quem é o Feliz Natal e o Novo Ano
        próspero que esperas?
São teus. São teus. São teus.

O sol , a manhã e o vento
O orvalho, a relva e a rosa
A rua charmosa
A cidade que abriga
A noite de festa
O Feliz Natal
Ano Bom , sem igual!
São teus!
São teus!

Cuspa na fronte do outro
Ria o teu riso desdenhoso
Regurgita e vomita as tuas duras ofensas
     e durma...em paz,
se puderes, ah...mas podes!
Tu és o opressor, o consumidor,
         o dono, o patrão.
Tens garras...que pena eu sinto de ti!
Extinguiram teus braços de abraços
Tens garras...
Tens garras...
 
 
 

SE ME DEITO CEDO

SE ME DEITO CEDO
                                         Vera Popoff

Se me deito cedo
 vestida de dor, esmorecida , cansada .
O corpo exigindo repouso, doído, moído
A alma implorando silêncio...
        eu perco a lua.

Se perco o luar
Fico sem a magia
Não sonho e não subo às estrelas
O canto ao longe, só ouvido por mim...
A lembrança afável que se concretiza
O doce do beijo na boca
A brisa amorosa da noite
O mistério e a ausência d'alguma razão
                Perco...
  se me deito  cedo
na busca do leito branquinho,
macio, aconchego no ninho.
Capenga, molenga, sou carne jogada,
             cansada, estirada
recompondo energia para o novo dia.

                    Mas perco o luar!

BRANCO E PRETO

BRANCO E PRETO
                                         Vera Popoff

O branco  é a paz e a calma
É translúcido e inspirador
É a alvura da alma
A pomba, a folha não escrita,
o lenço da partida.
E o preto?
O preto é o carimbo , a assinatura que lavra
                      a escritura.
É a coragem, é a noite que aconchega
os mistérios e a perspicácia
É a força onde acontecem, com bravura,
                       as decisões.
É a cor do brasileiro que jamais se cansa
É a luta pela liberdade , dignidade e a igualdade.
É o destemor, a cor de fato e de direito
É a mão que constrói a Nação!
O preto é a noite cálida
que  apresenta-nos  às estrelas e à brancura da Lua.

VERÃO O VERÃO?

VERÃO O VERÃO??
                                      Vera Popoff

Chegou o verão!
Verão??
Sim , verão mas se calarão, mais uma vez!
Verão e não se aperceberão o quão são usados e pisados.
Verão e sentirão o verão quente e cada dia mais miserável. Mas não se importarão!
Verão o quanto está desmoronada a Nação, mas sob o cabresto...seguirão.
Verão o tamanho da promiscuidade e suas rasas vidinhas...continuarão.
Verão a escuridão dos atuais tempos e,
ainda assim, as luzes da coragem, não se acenderão.
Verão apenas mais um verão acabrunhado e
               desavergonhado.

AORTA

AORTA
              Vera Popoff

Na horta , um pé de pimenta doce ao lado,
                       um amor perfeito!
Na aorta , sangue bom, vermelho , vibrante
e confiante na fortaleza do coração que bate
          no lado esquerdo do peito.
Colho na horta o que alimenta e produz energia
Na aorta , injeto sonhos ...
no sangue que corre vermelho, vibrante!
A horta é regada da água mais transparente
A aorta é regada do sangue rubi e latente.
Na horta o alimento deixa-me forte e corada
Na aorta , alimento o meu sangue das utopias.
Nas células , mais amor e mais fantasia!


CHEGA!

CHEGA
             Vera Popoff

Agora, chega!
Nasci, chorei, cresci.
Amei quem não amou o meu amor.
Escolhi caminhos tão penosos!
Iludi-me  e desiludi-me
Apaixonei e me desesperei
Participei de todas as lutas
que passaram por mim, glórias e inglórias
Plantei mil árvores e escrevi folhas em branco
Poesias e textos lidos, não lidos, irrelevantes.
Pari, amamentei e chorei todo tipo de dor
Sorri algumas alegrias, mesmo não tendo sido
verdadeiramente, inteiramente e inconsequentemente alegre.

Arrisquei-me mais do que podia
Recolhi tantos cacos!
Alvejei tantas nódoas!
Remendei tantos trapos!
Andei muito além do desejado
Dancei passos mal marcados
Abdiquei dos sonhos mais lindamente sonhados.
Fui tola, fui ingênua , fui pequena e fui tão grande
quando exigiram-me crescimento.

Mas agora, cansei o cansaço "mais grande"
           que se pode cansar!
Sento-me, então , sob árvores que plantei
Recosto-me no barranco mais próximo
Deito-me na relva e espero...
um colibri, uma canto do sabiá,
 um cheiro bom do jasmim.
Acaricio as pétalas das rosas escolhidas, no jardim
Aprecio a construção do ninho e
emociono-me , apenas e tão somente , com os  pássaros , e as asas dos passarinhos.

Sair do meu quintal para ver o quê?
Convidada, não vou às festas
e já não vivo de aparar arestas.
Chega de exposição e decepção
Chega de querer convencer e esmurrar
         o mal querer
Chega de lembrar o que desejo esquecer!

O mundo fora da minha porteira está tão feio!
Tanta dureza, aspereza e nas almas,
                pouca nobreza.
A justiça é seletiva e cruel
As palavras com gosto de fel!
Gosto mesmo é de lamber a própria mão
      lambuzada de mel.
Dane-se! Cansei!

Mas se precisarem de mim...cheguei!




 

LEVITANDO

LEVITANDO
          Vera Popoff


Mal consigo abrir ao olhos
Se é cansaço, sono, preguiça ou chatice,
             ainda não decifrei.
Quem sabe , um pouco de tédio, saudade, vazio?
             ainda não atinei.
Tem um silêncio lá fora
E outro silêncio cá dentro do peito
Não ouço mais nem mesmo, as batidas do coração
Será que parou, ou deu um tempo,
exausto com os contratempos?
Mas um lirismo me arrodeia
que chega nem mesmo sei  d'onde
Envolve a minh'alma  débil
Atenua a possível tristeza
Faz-me ascender, tamanha leveza!