quinta-feira, 30 de junho de 2016

LOUCO AMOR

LOUCO AMOR
                                     Vera Popoff

Nosso amor foi louco, foi fantasia!
-Ai, que saudade !
Sinto ainda o aperto dos teus braços
            no meu corpo,
contra o teu peito desejado e amado!

Passei a mocidade a sonhar contigo
A procurar a tua boca, nos delírios
Esfregando-me ao travesseiro,
fingindo ser o teu corpo!

Homem da minha vida!
Quero aquecer-me
na fonte de calor do teu olhar
que está distante!

Não envelhecemos juntos.
Fui mulher de apenas um amor!
Já tive outros amantes
tão frívolos e efêmeros !

Só uma música encantou-me!
Aquela dançada de corpo colado
de desejo alucinado
ignorando qualquer razão
só ouvindo o coração!

Vale a pena o meu sonhar...
Tu és ainda...a inspiração
das minhas pobres rimas
És o cálice de vinho tinto
que me embriaga e desvaria!

Vou viver o pouco que me resta ...
          delirando
Tua lembrança há de me matar
E mesmo descarnada
hei de amar-te...ainda!



MINHA AVÓ

MINHA AVÓ
                                 Vera Popoff

Lá vem a minha avó!
Caminhando lentamente...
Os olhos de azul opaco,
apalpando por onde passa
e carregando o urinol.

Lá vem a minha avó!
Pés inchados, semblante velho e caído,
bochechas moles, muxibas
e treme pra carregar o urinol!

Lá vem a minha avó...voltando!
Apalpando, tremelicando as carnes
            amolecidas!
E vem...carregando o urinol que é vaso
            embaixo da cama
         à espera da urinação.

E senta a minha avó
na cadeira de balanço
que range doído no ouvido
compondo canção funesta!

Suas vestes da cor do escuro
Cabelos de birote branquinho.
Boca de fala caduca,
Bate, bate os dedos dilacerados,
na cadeira, que esconde os seus segredos!

-Sinto pena da minha avó
Que triste é o seu caminho!!
Só anda ...para esvaziar o urinol!

RETORNO

RETORNO
                      Vera Popoff

-Aceita-me de volta
Oh, minha terra aventurada!
Voltei para cuidar de ti
Quero ficar embriagada
com o teu perfume solto.
Voltei para abandonar-me
ao teu aconchego doce
Nos meus lábios quero encostar
o néctar das tuas flores.

-Aceita-me de volta
Oh, minha terra aventurada!
Voltei para entregar meus pensamentos
ao encanto azulado da tua lua.
Voltei para respirar aliviada
em tua floresta nua!

-Aceita-me de volta
Oh, minha terra aventurada!
Voltei para embalar-me
no teu vento sussurrante.
Voltei para nas tardes palpitantes
esperar , junto de ti ,
os meus amantes!

-Aceita-me de volta
Oh, minha terra aventurada!
Voltei porque , longe de ti, sofria!
Meus olhos gotejavam agonias.
Contemplava nos sonhos
o teu pôr-do-sol dourado
e sentia teu gentil orvalho n'alma!

-Aceita-me de volta
Oh, minha terra aventurada!
Voltei para abrigar-me
à sombra da tua paineira
e deixar-me beijar
por tua névoa alvissareira!

-Aceita-me de volta
Oh, minha terra aventurada!
Voltei descorada , pálida e fria
para refazer-me ao reluzente incandescer
dos teus relâmpagos!

-Aceita-me de volta
Oh, minha terra aventurada!
Voltei para agonizar inteira
nas  tuas  noites úmidas,
à beira das tuas águas,
que são liras perfumadas!

domingo, 12 de junho de 2016

ADIANDO

ADIANDO
                        VERA POPOFF

Adiei para o seguinte dia
     a minha alegria.
Deixei para apreciar mais tarde
o cheiro inebriante daquele jardim!

Adiei para a próxima noite
a contemplação do céu sobre mim
Do chão eu só lamentava, e chorava
e lamuriava  e amargava dores inúteis
Então , debruçada na janela semiaberta,
       não enxerguei o luar
Adiei... para momento mais propício,
quando o entusiasmo de viver alcançasse
            um sublime início.

Fui adiando a esperança,
Adiando o momento de deliciar-me
        com doces lembranças.
Muito a fazer, tanto a correr, hora de tarefar...
O campo das lamentações bem aberto
Recebendo as sementes das aflições,
das mágoas, de tudo, tudo que não foi conquistado.

O inverno chorado, doído, sentido na pele.
Adiei a chegada da minha primavera
Que tola espera! Sem sonhos, sem a germinação
        da beleza, do aroma sedutor, do amor.

Adiei o passeio ao mar, a caminhada descalça
     com os pés afagando a areia.
Adiei a cócega gostosa da caricia no pescoço
Adiei o beijo com gosto de amora
Não, ainda não era o momento
Esperaria a outra estação , a melhor hora!

Adiei a boa palavra, o sorriso irresistível,
Adiei o carinho, o abraço, a mão estendida
Adiei o momento de abrir o frasco de perfume ,
A estreia do vestido mais bonito,
Adiei a semeadura no quintal estéril
Adiei a colheita , adiei a data perfeita.

Assim vou adiando, adiando...
Adiando o encantamento
O deslumbramento pela vida
Adiando aquele instante de agarrar-me
    à vida e simplesmente...viver!






terça-feira, 7 de junho de 2016

ONDE ESTÁS , Ó JARDINEIRA?

ONDE ESTÁS , Ó JARDINEIRA?
                                                                      Vera Popoff

Onde estás , ó jardineira,
afastada do teu jardim?

Não vês a rosa despetalada
A margarida enlutada
As macieiras sem frutos
Os teus jasmins sem perfume
E nas amoras...tanto azedume?

Onde estás , ó jardineira,
apartada do teu jardim?

Não vês a primavera tão desflorida
As gardênias amarelecidas
Os gerânios desmerecidos
Os cravos solitários e entristecidos?

Onde estás , ó jardineira,
separada do teu jardim?

A terra endurecida
As folhas todas caídas
Camélias emurchecidas
Os botões enfraquecidos
As sementes sem brotação?

Onde estás , ó jardineira,
desconjuntada do teu jardim?

O tempo é de seca brava
Tua alma necessita, com urgência,
de um bom fertilizante!
Tua esperança tem cochonilhas
sugando o verde ,d'antes, tão reluzente!

Onde estás , ó jardineira,
sequestrada do teu jardim?

Os beijos, d'antes pintados,
estão hoje, descorados
As onze horas perdidas
estranham o fuso horário
Que período temerário!!
Um jardim assim esquecido
Não espera, não exubera???

Onde estás, ó jardineira,
Morreste com o teu jardim??

FUI ARTESÃ

FUI ARTESÃ
                                 Vera Popoff

Não me queixo.
Fui muitas coisas, na vida!
Entre tantas, fui artesã.
Artesã das linhas, agulhas,
Das bonecas sonhadoras
Das toalhas remendadas
Das todas colchas bordadas
Das fitas coloridas e entrelaçadas
Dos botões bem e mal pregados
Das lantejoulas luzindo
Das essências perfumadas
Dos anjos, as minhas mãos , conduzindo!
Cozi e teci. Emendei e cerzi.
Enrolei-me nos laçarotes
Construí uma casa cheia  de fricotes.

Lãs tricotadas, algumas linhas cruzadas...
Alguns sonhos rasgaram-se
e não pude remendá-los!
Oh, artesã , o que fizeste?
Se nem teus sonhos , consertaste?

Tantas alegrias esfarraparam-se
Ilusões doces , mas sensíveis, não resistiram
               descosturaram-se!
Esperanças viraram trapos
Os nós dos cordões da existência
               apertaram-se!

Oh, artesã dos olhos de seda
Da alma vestida das cores da chita
Do coração escarlate, vez em quando, apertado
Do grande amor perdido e destroçado
Dos abraços afrouxados
Dos beijos , na boca, tatuados
Da vida mal costurada...

MEU SIGNO

MEU SIGNO
                                Vera Popoff

Nasci sob o signo d'uma árvore!
Meu primeiro choro foi um pipiado
Tudo já era risonho
Fui parida como num sonho!

A tarde descia leve e azul
Os galhos foram os suaves braços
      de minha mãe!
Neles dormi, descansei , o mundo encontrei!

Tanto abrigo !Que aconchego!
Aquele seria, para sempre, o meu apego!
Cresci como cresce um manacá da serra
Mudando , transmudando , metamorfoseando...

Exuberante majestade vestida de rosa
            e branco e lilás
Nenhuma dor qualquer doía em mim
Mas toda alegria da flor, floria em mim
A vida seguiu...

Aqui estou ! Vivendo todos os tons de verde!
Alma quieta e inquieta como um colibri
No meu céu ainda luzem estrelas
Laivos do sol e do luar relumem  no meu rosto
Estou na vida...no lugar que me coube...no meu posto!