sábado, 26 de agosto de 2017

REGRESSO

REGRESSO
                    Vera Popoff

Regressei ao passado...
Cheia de esperança de reviver pedaços doces
                   da vida!
Não sei se foram muitos, se foram tantos , ou...
se foram quase nada e superestimados.
Só sei que o tempo passou depressa,
          ora arrastado.
Lembro-me que o céu inda era azul,
que eu era distraída e não percebia o que doía.
Revi no pensamento as minhas tias
Uma engraçada, outra severa, tanta ternura
Mas na volta ao meu passado, elas morreram
                 outra vez!
E a minha mãe  sorria , linda!!!
Meu pai contava casos e meu irmão sempre ao piano
Foi bom revê-los! 
Mas no regresso ao passado, novamente senti a dor
                    da derradeira despedida.
Meu Deus Santo!! Quero esquecer todas as alegrias vividas
para não lembrar-me das tristezas revividas.
Sigo sob o céu...já não tão azul...

SÓ UM JOGO

SÓ UM JOGO
            Vera Popoff

Era apenas um jogo...
Uma distração, amendoim torrado,
poltrona confortável e a vontade de ganhar.
Um jogo... como a vida...um jogo
A bola rola e a esperança desliza na ponta dos pés
Esquecido todo o resto...tarefas e preocupações
A cada lance , a cada drible e o coração dá salto
-Pura emoção, mas...já não é só um jogo.
é tensão e virou dor.
O jogo acabou esvaziado de esperança
O que foi gostoso  e doce, hoje, azedou.
Mexeu comigo, desnorteou o meu equilíbrio.
Enfim a conclusão tão racional:
- Bobagem, foi só um jogo!
Mas eu sofri, caramba!!!
Mas eu sofri, caramba!!!

POEMA DO DESCONTENTE

POEMA DO DESCONTENTE
                                                Vera Popoff

Não bastou querer viver.
Não  bastou abrir a janela e o sol invadir a casa
Não bastou pisar a água corrente e me banhar
           ao som da cotovia
Não me bastou o pensamento, nem a filosofia
Não me bastou ter a ideia, uma palavra doce
Não me bastou fingir que ando tão contente
              ...sou descontente.

Não me bastou brincar de escrever poesia
As falas do ser humano perturbam,
           soam como heresia
Fujo para um lugar  que não me esconde
e finjo que  está tudo bem, que sou contente,
apenas só um  pouquinho, diferente
Mas de verdade...sou descontente.

Acordo na madrugada fria , cheia de sensações
Caminho , vento na cara, passos ligeiros
Quem sabe , num belo dia, desnudo as emoções
E poderei extravasar tais sufocações,
Dizer que , enfim, eu vi a felicidade,
falar  com segurança :- como estou contente!
Mas por enquanto , sou o que posso
            ...sou descontente!

        


DESVALIDA

DESVALIDA
                      Vera Popoff

Quando a agonia e a tensão se juntam
Quando um quase desespero e a sofreguidão
            estão à flor da pele
O coração esmaga-se...quase me mata!

Sema as gotas que aliviam dores
Sem remédio e sem alívio, regurgito
            a desesperança.
E num trança, trança de paixões feridas
A quem recorro?
Se nada enxergo e n'onde piso
não há socorro.

O pranto prendido, escondido e inibido,
       à alma, pesa!
Não me contenho e lanço-me ao precipício
   das amarguras, contra a corrente.
O subconsciente sabe além,  da minha frente
O mal está por perto, já "arrodeia".

Meu corpo é desvalido, tão fraco e frouxo
O sentido atina e já lastima
Não há como conter a má corrente
A premonição presente, não me desmente!

Fraquejo e tombo.
Nem mesmo aquela flor tão bem cuidada,
               resiste.
Cai murcha, desolada,  e  no chão duro
                   jaz pisada...


                  

      
Sangrias estancadas
                      Vera Popoff

Pois bem!!
Todas as sangrias estancadas
As caras cínicas, nada envergonhadas...
A Nação, no chão, esfarelada
O trabalhador com a dignidade aviltada
Para onde correremos?
Um caminho mais bonito, encontraremos! Ah...encontraremos!
Perplexos e exaustos, sobrevivemos
E não desistiremos!
O mal inda persiste , mas seu tempo tem validade
Sem chance , acabará no esgoto
Embrulhados nas mortalhas da canalhice
Não resistirão à lama , à putrefação dos maus sentidos
Tombarão como covardes , pobres pervertidos!!

GOSTO ,DESGOSTO

GOSTO, DESGOSTO
                                          Vera Popoff

Sinto gosto pela vida
Mas  também sinto desgosto
Quando chega a tarde morna
Ai, que delícia de gosto!
Vem a noite sem luar
Santo Deus, quanto desgosto!
Nos campos percorridos com gosto
O gosto da amora doce
dá gosto doce ,  na boca de tantos desgostos.
Na confusão das ideias
Já não sei quando é gosto
e quando é desgosto.
Meço o tamanho do gosto
e o volume do desgosto
A conclusão me arrepia
Aquilo que parecia gosto
virou enorme desgosto.
Retiro tudo que disse
Começo outra história...com gosto
Escondo-me em meio ao mistério:
-Afinal, minha vida é um gosto
        ou um desgosto?
E entra este mês de agosto
Vislumbro enorme desgosto,
Mas  no cheiro da tangerina
volto a sentir pleno gosto.
Se sorrio , o faço com gosto
Se choro, deito sob o desgosto
No reflexo do sol  na janela
enxergo um dia de gosto
Mas chega um vento do sul
e carrega a alegria gostosa
Cá estou começando do fim...
   sou outra vez...desgostosa!



O QUE SERÁ DA VIDA

O QUE SERÁ A VIDA??

                        Vera Popoff
O que será a vida?
Além d'um sonho esquecido,...
Do coração todo repartido
E das ilusões atiradas ao chão e pisadas?

O que será a vida?
Além do teu olhar indiferente,
Do abraço mal abraçado, tão frouxo?
Da boca humilhada , esmolando
um último beijo,
E a sufocação do mais ardente desejo?
O que será a vida?
Além do lenço da partida, ao vento,
balançando?
E do caminho esburacado
Do solo já esturricado
E do pensamento livre, agora travado?
O que será a vida?
Além da mão calejada
Da beleza consumida
Da cachaça barata, engolida
Da garganta, pelos prantos, esfolada,
Da raiva disfarçada , da indiferença degustada,
Da alma desprezada, brincando que é amada?
O que será a vida?
Além dos filhos paridos, criados, sumidos?
Das desilusões entre mulheres e maridos?
Da cama fria ... arrumada pelo desamor
Da blusa bem abotoada
E do seio não mais tocado e afagado?
O que será a vida?
Além de uma semana de agonia
e poucos minutos de alegria?
Das raras e distantes belezas
Das poucas levezas e finezas,
nenhuma moleza e o enfrentamento das baixezas
Das avalanches de safadezas e torpezas?
O que será a vida?
Além das rasas batalhas vencidas,
Mas...da guerra perdida????
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