terça-feira, 24 de maio de 2016

TRITURANDO

TRITURANDO
                        Vera Popoff

Tarde fria...
Fria e sem esperança
Fria e pobre de qualquer ousadia!
O sol brilha com uma timidez irritante
O céu de um azul nada convincente
À frente,  a máquina trituradora de resíduos
E eu vou triturando, triturando, triturando...
       as folhas caídas das palmeiras
Junto, lá se vão , triturados os meus sonhos
Picados, esmagados , dilacerados!
Mais um galho seco, mais um gosto triturado
Agora  transformado em desgosto  moído
Vontades, desejos ,anseios triturados
Viram restos misturados à terra pisada
A vida triturada , a alma triturada,
a folha da palmeira, a alegria, toda a fantasia
            trituradas.
Rastelo o chão forrado e junto
rastelo a existência
            triturada.
Final do dia
O sol pálido se despede
O céu  azul  acinzenta-se
A máquina de triturar  silencia
É  a vida que triturada, se abrevia
Resta menos ...um dia!

domingo, 22 de maio de 2016

ADEUS , ROTINA!

ADEUS , ROTINA!
                                          Vera Popoff

Despertei a rebeldia!
Chega de obediência a mim mesma
Adeus ao relógio e seu irritante ponteiro
Contando os segundos,  os sessenta minutos,
a hora completada, firmada, estabelecida.

O relógio sem ponteiro é agora,
apenas um quadro da antiguidade.
Já não mexe com a minha felicidade
Já não incomoda a minha alegria
Tampouco indicará alguma nostalgia.

Depois da disciplina militar
das regras opressoras a determinar
o meu espaço, a minha obra,  o instante
de sorrir, alegrar, extravasar, cantar,
Recito a poesia da liberdade!

Foi difícil derrubar os muros
Abrir aquela porta há tanto tempo fechada
Arrebentar os trincos que aprisionavam
Escalar as montanhas que turvavam a visão.

Mas cheguei naquele lugar que  imaginei
                     existir.
Visão com incrível amplidão!
Sons suaves , cânticos angelicais
Música de Bach, Mozart,  Chopin,
 Liszt com um Sonho de Amor para recordar
Beethoven e a  Sonata que ilumina
minhas noites calmas de luar!

A MADRUGADA

A MADRUGADA
                                            Vera Popoff

A madrugada não se importa se estou feliz ou não
Segue o seu ritmo arrastado e lento
Uma hora , duas horas , quatro e meia...
O sono não veio e o silêncio grita no meu ouvido
O cansaço pesa! 
Ai, com pesa !
Nas pernas esticadas,
no corpo que finge repouso,
no pensamento que estorva a paz,
nos sentimentos que não gosto de sentir,
nos laços que quero cortar e não consigo,
na frustração do sonho não vivido.
A demora do amanhecer, desola!
Tenho pressa que a noite acabe
Dizem todos:
-Amanhã é outro dia!
Oxalá eu encontre entusiasmo
na exploração venturosa
da aurora que diz-se pressurosa!

A CAIXA ENTERRADA

A CAIXA ENTERRADA
                                               Vera Popoff

Pronto!
Passei  sete cadeados  na caixa
Enterrei-a no fundo do quintal
        em cova funda
A alma suspirou profunda...mente!
Já não existe o risco de ser , novamente,
          aberta a caixa malfadada
Cheia dos pecados mortais,
dos sentimentos banais
das tristezas vãs
das alegrias fingidas
dos aborrecimentos perpetuados
das lágrimas , estupidamente, jorradas
das paixões devastadoras
dos beijos mal beijados, com gosto de nada
dos perjúrios que flecharam alguns corações
das descrenças e desilusões
dos enganadores perdões
do gosto de fel das traições!
da desolação com tantas indignações!

Plantarei sobre a sepultura da caixa pesada
Um pé de flor, uma muda de capim cidreira
pois  esta foi a vez derradeira
que carreguei nos ombros cansados
a caixa das funestas assombrações.
Que se derrame sobre ela
as chuvas torrentes de todos os céus!
As sementes inocentes brotarão
aliviando o peso do chão!


sábado, 21 de maio de 2016

INSÔNIA

INSÔNIA
                      Vera Popoff

Uma noite sem dormir
pode ser um momento devastador,
mas também pode ser inspirador!
A insônia é uma sombra funesta
ou uma luz que aparece,
uma semente brotada
uma  flor florescida,
um poema acabado
uma rima encontrada,
uma reflexão
a tomada da decisão
o final do sofrimento
e o renascimento
de um  espírito enfadado.

Uma noite insone traz amargura,
Lembrança de um tempo pesado,
um humor tresloucado,
uma mágoa remoída, mas
pode mostrar a estratégia
da batalha a ser vencida,
da mudança de rumo
a descoberta de um traço no teu rosto,
Enfim...o prumo!

A noite insone é desoladora!
O silêncio lúgubre
A solidão que amedronta
o nó na garganta,
Uma dor sobre o ombro,
o inverno que tortura, mas...
pode ser o nascimento da espera
    da primavera!
o vislumbrar da flores
a visita d'um colibri,
do aroma do jasmim,
das multicores do jardim!

A noite insone traz recordação
A lembrança acolhedora do teu abraço
O gosto do teu beijo apaixonado
O meu corpo enroscado no teu corpo
A tua respiração enchendo de amor
   o meu coração!

Uma noite sem dormir faz sangrar
um velho ferimento,
Eu  conto e reconto o tempo das minhas penas,
rumino tantas dores
avivo as mais duras mágoas, mas
posso afagar a alma
Pensar num campo verde
retomar a escondida calma
ressuscitar a paz morrida
desembrulhar a energia escondida
Pensar num amanhecer palpitante
sonhar acordada com a vida que resta,
             abrir uma fresta!






PASSOU

PASSOU
                          Vera Popoff

Graças ao Bom Deus!
O passado passou...
Até que enfim livrei-me dele,
dos seus  fantasmas , das ilusões,
das lembranças que eram mentiras,
dos amores que jamais foram eternos,
das paixões  nunca tão intensas
como pareciam...
Nem foi  açucarado como quis acreditar
Tampouco o céu era azul com imaginei e pintei
Nem mesmo os encontros foram alegres,
     como  por anos,  rememorei!
Caí em mim
Desci da nuvem da magia
No início...uma nostalgia!
Depois, no correr dos dias
O alívio! Quanto alívio!
A desmitificação da lenda do passado desenhado
como a tela  mais bela já vista,
como obra eternizada
como o instante glorificado!
Os pés firmes no presente
A vida é agora, felizmente!

COTIDIANO

COTIDIANO

                                           Vera Popoff

Jamais usei um despertador
Nunca perdi a hora
Às cinco e meia, madrugada escura
ponho-me de pé!
O leito  vira espinheiro
incômodo, desconfortável!
A madrugada inda está intacta
Não foi ainda maculada
Seu aroma é puro e agradável!
O galo canta, o jacu faz algazarra
A chaleira chia , sai o primeiro  café
O coração  ainda guarda alguma fé!
O silêncio , a solidão , a constatação da vida
trazem um imenso alívio.
A caminhada em minha companhia
Os pés pisando  as  folhas secas
O sereno envolvendo o corpo
O primeiro bom dia a quem passa
O sol querendo dar o ar da graça
Ah...que pena que a hora avança!
Viveria assim...
Isso é que é bonança!!!