quarta-feira, 21 de novembro de 2018

SEMPRE NOITE

Simplesmente Verinha
 
SEMPRE NOITE
                               Vera Popoff
                                                  
É sempre noite.
Não amanhece, não amanheceu...
não amanhecerá
      outra vez?

Ouço os grilos que criquilam
Os pássaros que chilream
Maritacas espalhafatosas
Mas olho pela janela e está escuro.
Não amanheceu, ainda?
Saio pelos recantos
Caminhando sem destino
Campeando a esperança
Buscando a minha alegria caída, perdida entre as flores do campo.
Tateando os botões das rosas teimosas
que não desabrocham o seu encanto.
Qual grave pecado terei cometido?
Sinto o vento no rosto pálido
O mesmo vento que desenha as nuvens
As formas são monstruosas:
-homens adormecidos ou distraídos
-semblantes tão descorados!
-crianças aquietadas
-casas sem os alpendres
- janelas e portas fechadas...
Imagens frágeis, sombrias
Procuro o riso perdido
entre as folhas caídas ao chão .

PERDEMO-NOS

PERDEMO-NOS
                                     Vera Popoff

Perderam-se de mim
todas as amigas de infância.
Perdi-me delas e não valeu a pena
            reencontrá-las.
A distância estabelecida
é grande demais e o caminho
     tortuoso demais!
Tantas sombras nos corações!
Os mesmos sonhos não são mais sonhados
A luz que nos cobria
mudou de foco , nos dividiu.
Ao bater das asas, voamos opostamente
Eu alcancei as nuvens do céu
Elas partiram as asas
num rochedo devastador.
Tentei o alerta do perigo à vista
Mas foi deflagrada  a guerra
 entre os  nossos deuses.

E não senti, não chorei
Num minuto, lamentei e retomei
              meu voo alto.

O abismo entre as nossas almas
foi  desenhado pelas escolhas desencontradas.
Uma de nós ...chegou perto do céu
As outras cobriram-se do véu.

Elas querem falar e eu recuso-me a ouvir
O que desejo dizer
elas se incomodam ao escutar.
Triste enxergá-las  ausentes
Da tristeza que o povo sente

Assim passaram-se anos,
 Meio século de diferenças
A visão que minh'alma tem
É a cegueira que a elas convém.

Zerado. Eu não lhes escrevo
Elas tampouco leem.
  

RECONHECIMENTO

Reconhecimento
                           Vera Popoff

Fui convocada pela própria consciência
a fazer reconhecimentos! ...
Teria que reconhecer alguns versos
que saíram do meu coração .
Foram meus? Cheguei a duvidar...
Tão doces e tão ingênuos!

Depois teria que reconhecer as lembranças.
Hostilizei algumas
Curvei-me a outras
Pedi perdão a tantas!
Abriu -se o que vendava
as ilusões vividas.
Reconhece??
Ah..estão distantes demais!
Desmanchadas, são ilusões morridas*.
Doeu-me fazer o reconhecimento
dos amigos.
Foram tantos! Onde estão?
Já não somos os mesmos!
Sem riso, pouca alegria
Onde foi parar a magia?
Perdemo-nos e a ternura , agora,
tão rala, como a calda sem a doçura
do açúcar!
Próximo reconhecimento!
O lugar onde nasci,
Outro onde cresci,
Aquele, onde amei,
E fingi que fui feliz!!
Quase nada eu reconhecia...
Surpreendi-me por não sentir agonia,
tampouco , tristeza!
Nenhuma lágrima rolada,
A não ser pela minha mãe,
o meu pai e irmão!
Passou a vida, percebo!
Com meu suor e meu sangue
Escrevi história nova.
Mais intensa e mais extrema
Mais digna, mais comovida
Muito, muito mais conteúdo
Quase nada de frivolidades.
Até o Deus , antes apresentado,
mudou em mim!
Mora cá dentro do peito
um Deus que é Pai , de verdade.
Só não perdoa a hipocrisia,
a mentira, o preconceito,
a intolerância , o desrespeito ao miserável,
à mulher, ao índio, ao preto, ao diferente
de mim!
A vida reconhecida
Os sonhos sonhados com tantos!
Os sonhos sonhados para tantos!!
Os sonhos contaminados de amor!
Majestoso templo onde se reza
a oração conjunta da esperança .
Firmado o compromisso
Quero ser feliz de novo!!

TU E EU

TU E EU
                                                        Vera Popoff
Não trocaria de lugar contigo!

Tu  ergues com vergonha, as tuas mãos!
Adorando um Deus vazio de compaixão .
Comemoras a vitória egoísta do opressor
Ri e debocha o teu sarcasmo
sobre os semblantes tristes,
nunca abatidos
nem derrubados.
Eu, todavia , sou como o mar
em ardência
Lamento o bom combate , por hora,
sob espera
sob paciência
Buscando mais um sonho e
recolhendo, como se recolhem
conchas na areia ,
outros sonhos para sonharmos
juntos!
E seremos fortes, nunca solitários!
Voam tão leves as nossas
consciências
Já a tua, jaz pesada sobre um jovem
corpo abatido e morto!
uma mulher molestada
um negro aviltado
A floresta em chamas
Animais apavorados com caçadores infames.
A tua pretensa vitória é tão vazia
tão inglória!
Tem ruga perversa o teu semblante
Não desliza veloz a tua ideia
Tu foges da brisa que no ar
recreia e brinca!
A minha luta recomeçou
ainda ontem!
Não há o que esperar
Preciso acariciar o oprimido,
matar a fome que tem pressa,
afagar o desesperançado.
E tu? Aguarda o coturno na garganta , sufocando-te!
Tenta dormir com a tua consciência
aos gritos!
De nós dois, o perdedor és tu!

DEUS E SATANÁS

DEUS E SATANÁS
                                   Vera Popoff

Deus e Satanás
                                                       Vera Popoff
Cabisbaixo , com a hipocrisia,
Deus já não suporta tanta heresia !...
Chama Satanás para um congresso
Espanta-se com os religiosos em coro:
-Bandido bom é bandido morto,
em nome de Jesus!!

O outro cristão armado
Ostenta a metralhadora:
-Preto não serve nem para procriar e
pesa em arroba, feito um animal!
Satanás gargalha e diz ao Senhor:
-Diz-me, Senhor , estás feliz com o teu povo?
Dizem que foi o Deus que os honrou e capacitou!
Deus, perplexo, desconversa:
-Foste tu, diabo do inferno
que viraste a minha palavra do avesso??
Ri, Satanás, rebola e empunha a metralhadora:
-A lei agora é a arma, o sangue derramado, a mulher machucada,
o jovem pobre massacrado, o negro açoitado!
E tudo em nome do teu filho Jesus!!
Tomei o teu lugar, na Pátria dos vendilhões dos templos
Entrei nos corações dos teus fiéis
Fui espertalhão!
Incuti minha injustiça e o meu padrão!
As matas que criastes serão a fogueira nas pérfidas mãos!!
Não sobrará espécie para nova Arca de Noé!
Secarão os teus rios, tingirão de sangue os teus mares
O sangue jorrará: o irmão contra o irmão!
Lágrimas nos olhos de Deus...
-Onde errei? Onde errei?
Ri, Satanás , e aponta à Nação religiosa ,
o atalho da treva e da desilusão.
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Sempre noite

                    Vera Popoff
É sempre noite.
Não amanhece, não amanheceu...
não amanhecerá,
outra vez?

Ouço os grilos que criquilam
Os pássaros que chilream
Maritacas espalhafatosas
Mas olho pela janela e está escuro.
Não amanheceu, ainda?
Saio pelos recantos
Caminhando sem destino
Campeando a esperança
Buscando a minha alegria caída, perdida entre as flores do campo.
Tateando os botões das rosas teimosas
que não desabrocham o seu encanto.
Qual grave pecado terei cometido?
Sinto o vento no rosto pálido
O mesmo vento que desenha as nuvens
As formas são monstruosas:
-homens adormecidos ou distraídos
-semblantes tão descorados!
-crianças aquietadas
-casas sem os alpendres
- janelas e portas fechadas...
Imagens frágeis, sombrias
Procuro o riso perdido
entre as folhas caídas ao chão .

NAQUELA TARDE

NAQUELA TARDE
                        28/10/2018
                                                  Vera Popoff

Naquela tarde
Vera Popoff
Naquela tarde ...
Ah...Naquela tarde estava tudo diferente!...
Olhava o mundo e não mirava
sentimento, quiçá pungente
Os que passavam não se pareciam
com a minha gente.
Olhar nenhum fitando o outro olhar
presente.
Passos marcados seguiam como marchas
Almas penadas, sem gesto algum,
dirigiam-se caladas
ao cadafalso!

Como trá-los à razão?
Qual palavra na persuasão?
Senti perdida a minha emoção
Levei facada que estraçalhou
a esperança vã.
Ali, eu percebi!
Era a manada que seguia
sem razão, sem fé
O mundo desabado sobre um cego horror
A vida entregue ao triste dissabor.
Eu enxergava
Juro que enxergava!
Não me agradava, mas fiquei parada!
Perdão eu peço pela impotência
Avistar a tragédia
Sentir a dor
Chorar sem lágrima
Ver desamor
E ficar calada
Deixar o grito para o fato consumado .
Já não há razão para nenhum grito
Por isso...o lamento aflito.
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