quinta-feira, 11 de abril de 2019

GRITEMOS E CHOREMOS, ABRAÇADOS

Simplesmente Verinha
 
GRITEMOS E CHOREMOS, ABRAÇADOS!
                                                                                     VERA POPOFF
 
                                  
Como se não bastasse a incapacidade e a leviandade...
Ainda aguentamos a treva da grosseria,
A sujeira ...sem lavanderia
que baste,
para limpar o odor podre e a
nódoa de sangue que nele impregnou!
Ainda aguentamos seus acéfalos e
despreziveis admiradores ,
outros tantos seres dos horrores!

Arminhas e vulgaridades,
Mentiras e mediocridades ,
Culto à morte violenta
Torturas festejadas
Mãos sangrentas, homenageadas.
Brasil! Brasil!
Brincaste de céu e inferno
Caiste na indecência mais perversa!
Desmoronaste sobre um rio de sangue e lama.
Cutuquemos as feridas
para que sangrem
Para que gritemos de horror e dor!
Assim...jamais esqueceremos.
Sim, guardermos o rancor dos tempos, com gosto do medo
e do terror!
A vontade é de gritar a repulsa.
Choremos , sobre a terra manchada da violência e da vergonha
Abraçemos, juntos, uma causa,
que nos liberte da coisa abjeta e bisonha
Procuremos um sinal de luz,
um fio de esperança, um pulsar
d'algum amor
Antes que morramos todos
E deixemos o monstro solto
a causar a" mais grande" desgraça
jogada sobre nós!
Não! Não perdoemos os zumbis,
que lá no topo do inferno, o puseram!
Não amenizemos a catástrofe
Não poupemos as palavras que os definem
Se, idiotas, for vocábulo leve,
recorramos ao dicionário :
- infames, despudorados, vís,
que entregaram às bestas feras,
todos os Brasis!
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AS CHAGAS

Simplesmente Verinha
AS CHAGAS
                Vera Popoff
As malditas chagas foram abertas!
Doem ! Os abscessos purgam!
Expulsemos , rápido , a causa das feridas .
O desastre foi consumado!
O Brasil já está violado....
Sem perdão , aos 57 milhões de algozes!
Busquemos o alívio de tanta dor!
Olhemos nos olhos, uns dos outros!
Quem sabe...acendemos a luz do amor!

AUSENTEI-ME

AUSENTEI-ME
Vera Popoff

...
Ausentei-me do cravo e das rosas
Ausentei-me do sol e da brisa
Ausentei-me da luz e do jardim
Perdi-me dentro de mim!
Ausentei-me da primavera
Ausentei-me do perfume dos lírios
Da visão da janela, ausentei-me.
Fechei as cortinas ...
Debrucei-me sobre meus ombros
O cansaço me desatina
Sou a sombra procurando um corpo

SEGURADA PELOS CIPÓS

Segurada pelos cipós
Vera Popoff
Quando os anéis se foram
Ficaram os dedos......
Era pouca a força para segurar
algum bem material
Eu contava com o bem da vida
Eu contava com a força dos olhares
das filhas,
do desorientado companheiro,
contava com a habilidade das mãos
as linhas, as fitas , os novelos ...
eu lidava bem com os novelos
E cultivava , no coração, um canteiro
de zelos.
Zelo pela família e pela dignidade.
Zelo pela união, zelo pelos dons!

À luta, mulher!
Ficou o teto! Era o grande recomeço!
Ficaram os abraços e carinhos
Ficou o ninho!
Um grande quintal vazio...
sem verde , desabitado de passarinhos
Solo seco , pedras de todos os tamanhos
atravancando os meus caminhos...
Na insegurança, agarrada aos cipós , vagarosamente , desfazia, um a um,
os nós.
A pintura na casa tão velha!
Florinhas mimosas nas molduras
das portas e janelas
A máquina de costura
As linhas , os louvores
Muitos pudores
O chão, a energia, duas meninas
tão fortes! Tão corajosas!
A casa assustava-me!
Era esquisita e sem harmonia
Não era o que meu coração pedia!
Desolada, eu rondava o terreiro
e agarrava-me ao cipó ,
desatando outro nó.
Era o possível
Era a sobra, depois das tantas batalhas perdidas,
Depois da alma tão ferida!
Eu segurava-me nos cipós.
Mangas arregaçadas
O quintal é o meu chamariz
Muitas plantas e árvores serão
a força motriz
Na ajuda de amar e aconchegar.
Foram galhos quase secos fincados
Sementes espalhadas e semeadas
Em latinhas, copinhos, potinhos ,
catadora dos lixos alheios.
Pneus velhos...os vasos
Latas velhas, o adorno
Garrafas Pet, recicladas
As ternuras armazenadas
A alegria das formaturas
A festa das pequenas conquistas
A vida recomeçando
A brotação esverdeando
Os cipós me segurando.
Sentimentos harmonizados
Os sorrisos já exibidos
As consciências, feito uma pluma.
Os eixos reapertados
As esperanças despertadas
Fluiu
Brotou
Consertou
Amou
Reiniciou
Firmou
Caminhou
Energizou
Comemorou
Brindou!!!
O primeiro gole do vinho tinto
depois da década
vivida a seco.
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MUITO AMÉM...
Vera Popoff
Envolvido o corpo numa aura pesada...
Gente com a dignidade roubada...
Muito Amém para a grande
carência de amor
Muito joelho dobrado, na missa
E nenhum pudor!

Energias putrefatas. Canalhas
vestem vidas com fúnebres mortalhas.
Afundam as ilusões da beleza
já vivida,
da fome combatida
da miséria combalida.
Defuntos nos rondam...
com a força bruta dos nefastos
que nos torturam e gargalham e
cospem sobre a nossa humilhação .
Nosso passo, agora, é de fasto,
numa estranha estrada encrudescida,
já pisada, tristemente, reconhecida.
O silêncio é lúgrube , enquanto
as consciências são devoradas
por insetos , pelas larvas.
Nosso mundo chora , incerto,
pendente de indignação,
assolado pela crueldade
d'alguns carcereiros,
vís justiceiros,
que perfilam e marcham ,
lambendo os coturnos,
carregando o odor do sangue
que em nome do anticrime
derramam .
A livre avenida
está camuflada
tristemente fantasiada
de verde oliva.
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SAIR DE CENA

SAIR DE CENA
Vera Popoff
Sair de cena , às vezes ,
faz parte do teatro da vida....
O texto da peça enfastiou-me!
O figurino esgarçou-se
A página amarelou
A voz emudeceu.

Tempo de cerzimentos,
reflexões e ponderações!
Momento para a solidão,
sabiamente , ela habitará o palco!
Os textos serão reescritos
com a fantasia do manuscrito!
Na reestréia ...a luz estará focada
A roupa bem costurada
A vontade , respeitada
A energia , com retoques mais
carregados!
O palco estará ampliado
No espaço redecorado,
novas óperas cantadas,
novas paixões deflagradas
e chuvas douradas... sobre
inéditas utopias e ilusões.
No centro do palco redefinido,
esperanças brotadas
e sementes de amor
lançadas !
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SOLIDÃO POVOADA

Solidão Povoada
Vera Popoff
A solidão é ampla.
Tem atalhos que percorro...
sempre, sempre ...só.
Tantas vezes, olham-me com dó!
Tolos, tenho a alma povoada

O coração com muitos compartimentos
Onde vivem a saudade boa,
A coragem de viver à toa,
Lembranças tatuadas
Histórias bem e mal contadas
Poucas verdades e mentiras gostosas de ouvir.
"Causos" , muitos causos.
Sou guardadora compulsiva
de causos ouvidos
lidos e relidos, contados pelas
comadres, compadres e padres.
Causos das avós, do pai,
um brilhante contador de causos.
Caminho cedo, quase na madrugada
Encontro pessoas boas
As ruins, mando procurar
aquele mau lugar!
Três bichanos aguardam a comida
Levo na bolsa de pano que carrego
Sem folgar os passos
Um dever do qual o pé, eu não arredo!
O Nego, cão da rua
Enche-me de carinho
Abana o rabinho
E faço-lhe um afago
Dou -lhe grãos de ração ,
sua recompensa
Sistemático, mas livre!
Faz o que quer,
quando quer.
Nos alheios jardins, onde passo
Controlo a floração
Toco as flores com doce olhar
Com receio de as machucar!
Medito. O que é meditar?
Não tive esta aula, mas posso
imaginar
inventar
Intuir
sem falar.
Dou um drible na dor!
Ela leva um chapéu
Uma finta e dá um tempo !
Saio da marcação
e descontraída, memorizo
uma poesia ou canção!
Solidão povoada!
É mesmo, uma solidão arretada.
Joga com as palavras, mas
destrata o conceito e a ideia formada.
Aceita o sim e o não
Tem ojeriza ao talvez!
Talvez, sim?
Talvez, não?
É conversa que fica em cima
de muro.
Mal suporto uma cerca ou porteira
Muros? Só os derrubados.
Alma murada é alma confinada
Não voa, não corre , não viaja
Daí, a solidão perde o encanto
de ser a solidão povoada!