sábado, 26 de junho de 2021
DOIS MIL , NOVECENTOS E TRINTA E TRÊS DIAS
Dois MIL, NOVECENTOS E TRINTA E TRÊS DIAS
Vera Popoff
Dois mil, novecentos e trinta e três dias
contados um a um, riscados no calendário,
escritos em cada parede:
-Amanhã , vou embora!
e não fui...
Dois mil, novecentos e trinta e três dias
sonhando dormindo e sonhando acordada
com a partida, a despedida, com vida desinibida.
Dois mil, novecentos e trinta e três dias
Tão pobres de alegrias e cheios de agonias.
Do que me serviu tanto enfastio?
Como não cumpri este desafio?
Travada ,com a cara encharcada
da lágrima solta
Vestida com roupa rota,
acima do peso
abaixo do enlevo.
TENTANDO ESCREVER UM SONETO
TENTANDO ESCREVER UM SONETO
Vera Popoff
Faz tempo que não escrevo
Faz horas que nada leio
Faz anos que nada atrevo
Começo e paro no meio.
Transformei-me numa amadora de ações
Tudo que faço acaba depressa demais
ou perdura e machuca tantos corações
Nem eu mesma já ouço os meus" ais ".
No pensamento, mil ideais
nunca passam do imaginário
sou enganada por qualquer otário.
Sigo assim ..matando o tempo
Já nem sei onde dói e porque dói
tampouco qual é o mal que me destrói.
CASA SEM NÚMERO
CASA SEM NÚMERO
Vera Popoff
Moro numa casa sem número
Rua tal e qual, S/N
Bairro sem nome
Cidade sem referência
Cheguei de endereço sem procedência.
Colocaram-me aqui
- Mas não quero viver aqui!
Não é o meu lugar, tampouco meu lar.
--Faremos que fique, ainda que aborrecida, pois , pois,
estás na porta do sol!
mas a mim não aquece
o tal sol.
por mais que tente, jamais sou
contente
Lá se foi quase década
É tempo demais tentando não desgostar
pinturas, desenhos, retalhos
calculados em polegadas, costurados e
nada adianta
a casa está sempre feia, tão feia
sem o meu reconhecimento
sem dela receber um acolhimento.
Fui ficando, por fraqueza de espírito,
por falta de fé,
por num deus, já não crer
sem saber o que é querer.
Não tenho o comando da vida
encarcerei-me...
pois daqui jamais sairei.
aqui, desgraçadamente, morrerei.
joguem as minhas cinzas no esgoto
do Rio Tietê.
ENTRE MUROS
Vera Popoff
Entre muros opressores
Levantados por alguns vis enganadores
vou fingindo que respiro
interpretando a mulher coragem
uma grande mentira, a falsa miragem.
Condenada à sentença pesada
sem direito ao habeas corpus
por um dia, uma hora , um minuto.
Trancafiada numa cela do desprezo
sou meu próprio carcereiro
controlo o espaço desanimador
sem horizonte
sem a fonte de beber
sem o meu livro rasgado para ler.
a cara no muro
a energia já falecida
a esperança desaparecida
Oh...mulher fiteira!
queres mais do que tem?
- quero só o meu sonho
que foi roubado
quero o caminho de volta
um atalho
um retalho para remendar ,
cerzir , consertar
a vida fingida que me foi destinada.
quinta-feira, 23 de abril de 2020
A RUA ONDE NÃO PASSA NINGUÉM
Vera Popoff
( Vera Popoff)
Na rua da minha casa não passa ninguém!...
Só passam o silêncio, o sossego e a solicitude,
também!
Minha casa fica no final da rua sem saída,
onde não passa ninguém!
A rua tem ladeira, é bem cuidada, é abençoada!
A rua da minha casa é esquecida, tem jeito de rua bucólica
mas enxergo nela, um pedaço de mim.
Sou a prefeita da minha rua
Quem cuida dela, sou eu,
mesmo cansada, meu desvelo com a rua
continua.
É apenas uma rua...
onde não passa ninguém!
Eu gosto de morar na rua onde não passa ninguém!
Saio no portão e vejo animal de rastro,
lagarta virando borboleta,
lagartixa acuada, perdendo a cauda, com medo
do gato que vive no mato!
No fundo, um riacho escondido do homem.
Meu vizinho é camarada ,
nos tem consideração.
E nós lhe devolvemos a atenção!
Ele viaja lá e cá , pouco fica na rua
onde não passa ninguém!
Engana-se aquele que pensa
que a rua que espreito é triste, sem recompensa!
Tem raio de sol na monotonia!
Tem debruçada sobre ela , a lua!
Tem estrela d'alva que se insinua e solta o brilho na rua
onde não passa ninguém!
A rua termina num arvoredo... preservado!
Nele moram o quati , o sagui agitadiço, atiradiço!
O sagui não vacila e não paga mico,
faz da mata, um rebuliço!
Tem gavião carrapateiro e tem o carcará
que "pega, mata e come!"
O céu é o guardião dos bichos, da mata e da rua
onde não passa ninguém!
O nome da rua onde não passa ninguém
é -COELHO NETO- "o príncipe dos pensadores"!
Eu me pergunto:- o que o pensador pensaria da rua
onde não passa ninguém??
(Coelho Neto)
A VIDA VAI TER QUE ESPERAR
Vera Popoff
VIDA VAI TER QUE ESPERAR
Vera Popoff
Saí na madrugada
Minh'alma estranha e gelada...
Uma tristeza arretada
Preciso de espaço e sigo a caminhada
Sinto o coração bater
O som é de premonição
Será que piso o grande inimigo?
Será que posso cumprimentar um amigo?
Será que a rua está bem lavada?
Será que posso alimentar o gato?
Será que a lua se importa com o terror do fato?
Será que alguém espreita o meu rastro?
Será que inspiro o ar contaminado?
Será que os meus passos levam-me ao fracasso?
Será que posso beber a água do regato?
Será que a morte ronda-me, de fato?
Será que é permitido andar este passo?
Será que encontrarei alguém no pedaço?
Perdi o rebolado
Ao ser assediada:
- Vai para casa , senhora!
- Já não posso caminhar, seu moço?
-A rua é erma
-A madrugada é escura
-A manhã inda não foi maculada
-Antes do sol nascer estarei de volta!
Não adiantou a insistência:
-Volta pra casa, senhora!
O perigo lhe ronda
O inimigo lhe sonda
A TERRA é redonda
Gira sisuda envolta em pesada sombra.
Dei meia volta
Um temor me assola
A angústia me enrola!
A caminhada está proibida
A alegria está inibida
A vida vai ter que esperar
A solidão do isolamento
O medo, meu grande tormento
A vida vai ter que esperar...