quinta-feira, 26 de novembro de 2015

TARDE QUIETA

TARDE QUIETA
                                       Vera Popoff



Eu vou cantar a minha tarde
Canto-a porque merece o meu canto
Tão singela e muda!
Nela , eu refugio o meu silêncio
impregnado de doçura !
Vez em quando bebo um gole de café,
outro gole da água benta pela fé,
mais um gole da presente plenitude!
E contemplo...o evento de tamanha magnitude!
Uma tarde sem a mancha do barulho,
Cujo único estorvo é um arrulho!
Na colheita da paz semeada,
no semblante da vida suavizada,
eu inspeciono o céu!
 Observo d'onde vem o vento,
se a nuvem anuncia o mudar d'um tempo!
Quintas-feiras, segundas e terças,
dias dos relógios lentos,
do silêncio atento
do entrelaçamento
da alegria mansa  e  da clausura
           sem submissão!
Celebro assim , com a voz murmurada
só no pensamento, a tarde silenciada!










terça-feira, 24 de novembro de 2015

A TESOURA NA GAVETA

A TESOURA NA GAVETA
                                         Vera Popoff

Na gaveta, há tempos fechada,
uma tesoura enferrujada.
Um pensamento em suspense...
Lá vão anos que a tesoura cortou
        tantos sonhos!
Ela cortou os tecidos brocados,
cortou os desejos sufocados.
cortou os planos embaçados
     na poeira da gaveta .
A velha tesoura esquecida
cortou a maciez de tantas sedas!
Cortou decisões que teriam sido
           brilhantes
Cortou ilusões deslumbrantes!
Na gaveta empoeirada...a tesoura
          enferrujada
Fazendo-me lembrar dos cortes afiados
          nas minhas fantasias ,
          nas finas alegorias
que cobriam uma vida de doces emoções
          tão passageiras !
A tesoura afiada cortou as vestes elegantes
da mocidade abraçada por amores galantes!

Aberta a gaveta empoeirada , há tempos
           trancafiada,
seguro a tesoura enferrujada
que cortou os tafetás , os cetins,
os linhos , as lembranças rendadas,
as esperanças desfiadas  , a vida
       mal costurada e portanto,
           toda rasgada!

BOCA DA NOITE

BOCA DA NOITE
                                           Vera Popoff

Larguei o bordado sem terminar
Tantos pontos , ainda faltando...
De que me serve mais um bordado?
Se o meu coração anda tão sufocado?

Troco a roupa comportada e caio...
     na boca da noite!
-Que cheiro de perfume barato!
-Que desarmonia insólita e desigual!
Mas inspira-me um poema marginal!

Um calor faísca na cova do peito
que arde, queima , lateja e sofre !
No hálito da boca da noite
eu procuro , com desespero ,
a boca que levou meu beijo.

De viela em viela ...
Dos  botecos aos becos,
Nas avenidas perdidas de saudades
Nas esquinas de todas as solidões
Eu farejo o cheiro do teu  corpo
que impregnou no meu corpo.

O rosto aflito tem urgência
e nenhuma prudência!
Os olhos atentos procuram teus olhos
Minha boca marcada procura o beijo roubado.

Na boca da noite
sob a luz fosforescente,
Desvairada, não corro atrás
do  que a razão consente,
mas do  fogaréu da paixão ausente.

Cansada , retorno!
Nenhuma esmola de carinho
Nenhum gole de afeto
Só a dor do desafeto!

Suada, retomo o bordado
Os  pontos recomeçados
uma atrás do outro , desafiam
a paciência e a decência
       que já perdi!

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

OLHOS PEQUENOS

OLHOS PEQUENOS

                                                           Vera Popoff

Olhos castanhos , tão pequenos,
embaçados de astigmatismo, mas...
 veem as pedras do caminho,
            a tempo
de livrar  os pés do passo equivocado e
do ódio  vazio e proclamado!
      

Olhos castanhos , tão pequenos,
embaçados de  astigmatismo, mas..
como enxergam os espaços amplos!
E vagueiam insistentes e ligeiros
pela Praça da Liberdade,
onde voam pelos ares da igualdade!

Oh, olhos castanhos , tão pequenos,
embaçados do astigmatismo,
vislumbram laivos d'esperança
sua visão , um mundo novo, alcança!

Olhos castanhos , tão pequenos,
embaçados de astigmatismo, mas...
apesar das visões tão duras
fixam-se num céu abarrotado de ternura.

Olhos castanhos e pequenos,
embaçados de astigmatismo
usam  lentes na leitura das poesias e
mergulham no lirismo das elegias!

Olhos castanhos e tão pequenos,
embaçados de astigmatismo,
percebem o galho que cresce,
salvam a rosa da ação predadora
         que a entristece!

Oh , olhos castanhos, tão pequenos,
embaçados do astigmatismo, mas...
enxergam  da vida , o mimetismo!
enxergam  a fluidez da correnteza
percebem  a dúvida na certeza.

Oh , olhos castanhos e pequenos,
embaçados de astigmatismo, mas
distinguem a pobreza das razões
embrutecidas , das vontades ruidosas,
    das decisões enganosas.

Olhos castanhos e pequenos,
embaçados de astigmatismo,
conseguem ver a tristeza d'um   amigo,
a mágoa guardada do pesar antigo,
a cicatriz do coração  sofrido.
a vontade presa e reprimida
a amplidão do sonho a ser vivido.

Olhos castanhos e pequenos,
embaçados de astigmatismo
mas veem o brilho do sol, num sorriso!
Veem  a alvura do jasmim  que
       embeleza e aromatiza
Veem  a possibilidade da transformação,
a  placidez da  paz desejada,
a vitória da palavra sobre a angústia
      d'uma  voz calada!
      

CHOVEM ÁGUAS

CHOVEM ÁGUAS
                                           Vera Popoff
Um vento
Um temporal
Um raio
Um trovão
Cai a chuva sobre a minha vida
Chovem águas de diamante
sobre as minhas lembranças
Os meus pés inocentes na enxurrada
A minha alma menina ri, na pequena estrada.
Chovem águas purpurinas
sobre os meus amores,
os perdidos e os encontrados!
Afinal,  todo amor amado, ilumina,
        vale a pena!
Chovem águas turvas
sobre as tantas perdas.
Não tiram as nódoas do inconformismo!
Chovem águas mansas
sobre as esperanças
O tempo passa e os sonhos mudam,
os  sonhos crescem, os sonhos vestem
as tristezas  cantadas  nas minhas elegias.
Chovem águas turmalinas
sobre as minhas flores
Cada pétala molhada
suaviza as minhas dores!
Caem águas versejadas
sobre a boca lírica
Vou  insistir na poesia
e dizer meus versos
com ou sem maestria
sobre os tormentos assistidos
sobre a indignação sentida
sobre a lama derramada
sobre a sangueira  jorrada
sobre a cegueira malvada
sobre as mentiras contadas
sobre as injustiças cometidas
sobre as tragédias consentidas
sobre os preconceitos cuspidos
sobre os irmãos desunidos
sobre as maledicências vingadoras
sobre as ganâncias vorazes
sobre os mercadores insensíveis
sobre as feiuras  visíveis e invisíveis.
Aconselhou-me um poeta amigo:
-Cantemos versos, até sobre os escombros!

FOTOS DA FOTÓGRAFA, PARCEIRA E AMIGA DIRCE MITUUTI

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

CALMARIA

CALMARIA

                                               Vera Popoff

À  mesa está o pão , o vinho, o azeite
A toalha é a mesma, alva e rendada
O assoalho tem brilho de cera e a paz
cai silenciosa na sala onde aquela  cor perdura.

O vaso de violetas , permanece
Incrível, mas não murcharam!
A vela ilumina os olhos da Virgem Bendita!
A esperança de acalmar a alma aflita.

Fora , vejo a procissão das palmeiras
enfileiradas , altivas , balançam
obedecendo a ordem do vento!
Pergunto :- por onde passou o tempo?

Não percebi. Arrumo tudo igual,
a mesma rotina de esperar...
Com o rosto impassível , aguardo
uma voz me chamando, um riso em movimento!

É meia noite e a lua avisa-me
-Foi apenas , mais um dia.
Na calmaria , recolho-me, enlanguescida!
Abotoo a camisola de renda e cambraia,
Na cama cheirando alfazema, chamo os sonhos.

Não foi hoje, ainda!
Mas amanhã poderá ser o dia
Do vinho à mesa, do pão, do azeite.
        e do retorno.

A DOR DO CRIADOR

A  DOR  DO  CRIADOR
                                      Vera Popoff

Rasguei os versos de amor.
Queimei a poesia escrita.
A singeleza da rima foi quebrada
A beleza, no momento, esquecida!
A "Doce" palavra jorrada, foi manchada
         e  pela lama , turvada!
A correnteza cristalina , desatina...
perdida de todo encanto, nada "Vale"!
E o que "Vale", agora?
"Vale" a dor do CRIADOR!
Ele sofre e lamenta, sem rancor!
Nem o perdão do inventor
diminui a desvairada dor!
Se a Sua Lágrima limpar a lama
Quanto valerá o fim d'um drama?