sábado, 26 de junho de 2021

TENTANDO ESCREVER UM SONETO

 TENTANDO ESCREVER UM SONETO

                                                           Vera Popoff


Faz tempo que não escrevo 

Faz horas que nada leio

Faz anos que nada atrevo

Começo e paro no meio.


Transformei-me numa amadora de ações

Tudo que faço acaba depressa demais

ou perdura e machuca tantos corações

Nem eu mesma já ouço os meus" ais ".


No pensamento, mil ideais

nunca passam do imaginário

sou enganada por qualquer otário.


Sigo assim ..matando o tempo

Já nem sei onde dói e porque dói

tampouco qual é o mal que me destrói.

CASA SEM NÚMERO

 CASA  SEM NÚMERO

                            Vera Popoff


Moro numa casa sem número

Rua tal e qual, S/N

Bairro sem nome

Cidade sem referência

Cheguei de endereço sem procedência.

Colocaram-me aqui

- Mas não quero viver aqui!

Não é o meu lugar, tampouco meu lar.

--Faremos que fique, ainda que aborrecida, pois , pois,

estás na porta do sol!

mas a mim  não aquece

        o tal sol.

por mais que tente, jamais sou

contente

    Lá se foi quase década

É tempo demais tentando não desgostar

pinturas, desenhos,  retalhos

 calculados em polegadas, costurados e

nada adianta

a casa está sempre feia, tão feia 

sem o meu reconhecimento

sem dela receber um acolhimento.

    

Fui ficando, por fraqueza de espírito,

por falta de fé,

por num deus, já não crer

sem saber o que é querer.

Não tenho o comando da vida

encarcerei-me...

pois daqui jamais sairei.

aqui, desgraçadamente, morrerei.

joguem as minhas cinzas no esgoto

            do Rio Tietê.



 ENTRE  MUROS

                                  Vera Popoff


Entre muros opressores 

Levantados por alguns vis  enganadores

vou fingindo que respiro

interpretando a mulher coragem

uma grande mentira, a falsa miragem.

Condenada à sentença pesada

sem direito ao habeas corpus

por um dia, uma hora , um minuto.

Trancafiada numa cela do desprezo

sou meu próprio carcereiro

controlo o espaço desanimador

sem horizonte

sem a fonte de beber

sem o meu livro rasgado para ler.

a cara no muro

a energia já falecida

a esperança desaparecida

Oh...mulher fiteira!

queres mais do que tem?

- quero só o meu sonho 

que foi roubado

quero o caminho de volta

um atalho

um retalho para  remendar ,

cerzir , consertar 

a vida fingida que me foi destinada.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A RUA ONDE NÃO PASSA NINGUÉM

A RUA ONDE NÃO PASSA NINGUÉM
                                             Vera Popoff


RUA ONDE NÃO PASSA NINGUÉM
( Vera Popoff)
Na rua da minha casa não passa ninguém!...
Só passam o silêncio, o sossego e a solicitude,
também!
Minha casa fica no final da rua sem saída,
onde não passa ninguém!
A rua tem ladeira, é bem cuidada, é abençoada!
A rua da minha casa é esquecida, tem jeito de rua bucólica
mas enxergo nela, um pedaço de mim.
Sou a prefeita da minha rua
Quem cuida dela, sou eu,
mesmo cansada, meu desvelo com a rua
continua.
É apenas uma rua...
onde não passa ninguém!
Eu gosto de morar na rua onde não passa ninguém!
Saio no portão e vejo animal de rastro,
lagarta virando borboleta,
lagartixa acuada, perdendo a cauda, com medo
do gato que vive no mato!
No fundo, um riacho escondido do homem.
Meu vizinho é camarada ,
nos tem consideração.
E nós lhe devolvemos a atenção!
Ele viaja lá e cá , pouco fica na rua
onde não passa ninguém!
Engana-se aquele que pensa
que a rua que espreito é triste, sem recompensa!
Tem raio de sol na monotonia!
Tem debruçada sobre ela , a lua!
Tem estrela d'alva que se insinua e solta o brilho na rua
onde não passa ninguém!
A rua termina num arvoredo... preservado!
Nele moram o quati , o sagui agitadiço, atiradiço!
O sagui não vacila e não paga mico,
faz da mata, um rebuliço!
Tem gavião carrapateiro e tem o carcará
que "pega, mata e come!"
O céu é o guardião dos bichos, da mata e da rua
onde não passa ninguém!
O nome da rua onde não passa ninguém
é -COELHO NETO- "o príncipe dos pensadores"!
Eu me pergunto:- o que o pensador pensaria da rua
onde não passa ninguém??

-"A felicidade é uma ilusão na distância. As estrelas estão no vazio e nós vemos ela no céu."
(Coelho Neto)

A VIDA VAI TER QUE ESPERAR

A VIDA VAI TER QUE ESPERAR
                                    Vera Popoff

VIDA VAI TER QUE ESPERAR
Vera Popoff
Saí na madrugada
Minh'alma estranha e gelada...
Uma tristeza arretada
Preciso de espaço e sigo a caminhada
Sinto o coração bater
O som é de premonição

Teimo, desconfiada
Será que piso o grande inimigo?
Será que posso cumprimentar um amigo?
Será que a rua está bem lavada?
Será que posso alimentar o gato?
Será que a lua se importa com o terror do fato?
Será que alguém espreita o meu rastro?
Será que inspiro o ar contaminado?
Será que os meus passos levam-me ao fracasso?
Será que posso beber a água do regato?
Será que a morte ronda-me, de fato?
Será que é permitido andar este passo?
Será que encontrarei alguém no pedaço?
Perdi o rebolado
Ao ser assediada:
- Vai para casa , senhora!
- Já não posso caminhar, seu moço?
-A rua é erma
-A madrugada é escura
-A manhã inda não foi maculada
-Antes do sol nascer estarei de volta!
Não adiantou a insistência:
-Volta pra casa, senhora!
O perigo lhe ronda
O inimigo lhe sonda
A TERRA é redonda
Gira sisuda envolta em pesada sombra.
Dei meia volta
Um temor me assola
A angústia me enrola!
A caminhada está proibida
A alegria está inibida
A vida vai ter que esperar
A solidão do isolamento
O medo, meu grande tormento
A vida vai ter que esperar...
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CORAÇÃO FECHADO

CORAÇÃO FECHADO
                                        VERA POPOFF

Coração fechado
Vera Popoff
Acordei muito cedo
Madrugada fria, triste aurora.
Vou me deitar muito cedo, antes da chegada da lua.
Não a quero desapontada com a minha tristeza tão crua, tão exposta, tão nua!
Com a solidão diante de tanta frieza.
O descaso com o sofrimento , com morte.
Um capitão cor de cinza, escarrando
o horror, o sadismo , a má sorte.
Um general debochado, quer boa notícia
sobre as covas compartilhadas.
Um juiz pateta, nem sabe o que diz,
se ri com o canto da boca tão suja,
tão desinfeliz.
Um deus pequenino clamado:
- deus acima do esgoto !
Que tempo tão cruel e maroto.
As mortes contadas em números.
Perderam seus nomes, seus filhos,
suas mães e seus pais
Ao coveiro da nação
não importam mais.
A ansiedade do dia:
-morreram duzentas?
-morreram trezentas?
-ah, foram cem?
Que importância isso tem?
Não, não tenho mais Pátria!
Meu coração fechou sua porta
Nele já não cabe
A terra de homens cruéis,
onde teimei em nascer
Não posso mais com tanto revés
Vou me deitar
Preciso sonhar

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

HORA DA VERDADE

HORA DA VERDADE
                                       Vera Popoff


Enfrentas , corajosamente , o espelho!

Sem o batom para disfarçar,
Sem o rouge de corar
Sem a meninice anos sessenta
Nenhum detalhe para simular o tempo.

O espelho e tu
Tu  e o espelho,
sem pudor, sem mentiras,
sem segredos e sem medos.

Pois bem, mulher!
Nada de promessas.
Anda, confessa!
A promessa de ontem
não foi cumprida
A de hoje, já esquecida.

Não dissimula, estás cansada!
O vigor já não ultrapassa o teu dissabor
O exaurimento venceu o encanto
Calou o teu canto!

Tua boca emudeceu, mas
a teimosa esperança, recrudesceu.
Vê o contraponto,
A tua vida , nem tão suave,
alcançou o impalpável ,
e inda está acesa
Um relume visita o teu semblante
Vai...segue adiante!
O teu espelho , enfim, reflete uma miragem
 Vive, inabalável, a tua coragem.